Dicas e artigos

Galiza: explorando o cruzamento da cultura espanhola e celta

A Galiza é um segredo fascinante

A Galiza não é bem um país à parte, mas esse característico canto noroeste da Espanha, separado do resto dela tanto pela geografia quanto pela cultura, fica a anos-luz de distância das imagens espanholas estereotípicas.

A capital regional, Santiago de Compostela, é mundialmente famosa: uma cidade encantadora cuja catedral românica é o objetivo principal do Caminho de Santiago. Vá um pouco mais a fundo e descobrirá uma região que mistura de maneira única a Espanha moderna e as raízes celtas, inclusive com seu próprio idioma e sabor cultural.

A Galiza é um segredo fascinante que espera para ser explorado.

Despenhadeiros e cabos

Ao entrar na Galiza cruzando os morros que a dividem das áridas planícies de Castela, sua primeira surpresa é o interior: é verde, tranquilo e costurado por rios. Depois, você chega à costa. O litoral de 1.200km da Galiza  se transforma com frequência em alguns dos despenhadeiros e cabos mais impressionantes da Europa; como o Cabo Ortegal, onde o Oceano Atlântico se encontra com a Baía da Biscaia, ou o Cabo Fisterra, na selvagemente linda Costa da Morte (nome dado por conta das centenas de navios que naufragaram em seu litoral irregular).

Entre os cabos coroados por faróis, a costa penetra terra adentro graças a uma série de rías. As baías ao longo do litoral oeste, chamadas Rías Baixas, estendem-se 30km para o interior, enquanto, ao longo da costa norte, as Rías Altas costumam ser menores, mas com cenário mais dramático.

O litoral é ligado por centenas de praias, a maioria de areia fofa, desde a gloriosa curva de 2km da Praia de A Lanzada até angras remotas aos pés de despenhadeiros, como a Praia do Picón.

É um litoral maravilhoso para passear. Os muitos caminhos cênicos incluem o recentemente inaugurado Camiño Natural da Ruta do Cantábrico, que se estender por 133km de Ribadeo até O Vicedo. Há surfe também: a Praia de Pantín recebe um evento da Liga Mundial de Surfe todo ano em agosto/setembro. Roupas de mergulho são obrigatórias… é o Atlântico Norte!

Vários arquipélagos perto das Rías Baixas formam o único parque nacional da Galiza, o Parque Nacional de las Islas Atlánticas de Galicia. A joia do parque é Illas Cíes, um santuário de aves proibido para carros onde você pode caminhar até observatórios panorâmicos e relaxar na belíssima Praia das Rodas com sua lagoa ao fundo.

Os melhores frutos do mar da Europa

© John Noble / Lonely Planet

Graças a todo esse litoral e dúzias de vilas de pescadores, os mercados e mesas galegos estão cheios de frutos do mar cuja variedade, qualidade e frescor têm pouquíssimos concorrentes reais na Europa. Você nunca sonhou que polvo fosse tão saboroso quanto é no pulpo á feira: pedaços macios de tentáculo salpicados de azeite e páprica. Você pode encontrar esse prato galego essencial em todos os lugares da Espanha, onde é chamado de pulpo a la gallega, mas ele nunca tem o mesmo sabor fora da Galiza.

Há uma enorme variedade de caranguejos, bons peixes frescos e pilhas de mariscos. As iguarias mais adoradas são os percebes, corajosamente recolhidos de rocas banhadas pelas ondas por percebeiros especialistas. Para comer um percebe você deve segurar a garra, torcer o outro lado e comer a parte suculenta que há dentro.

A Galiza também é famosa em toda a Espanha pela qualidade da carne de seus ricos pastos no interior. E ela não conta apenas com os louros de seus ingredientes de primeira classe: uma geração de chefs da “Nova cociña galega” está inventando sensações criativas de sabores em restaurantes de toda a Galiza. Experimente o Abastos 2.0 e O Curro da Parra em Santiago de Compostela, e você vai encontrar outros listados no Grupo Nove.

Vinhos do solo galego

Os vinhos galegos (ainda) não são tão conhecidos quanto outros da Espanha, mas estão vivendo um grande renascimento; eles são perfeitamente adequados para a cozinha e o clima da Galiza. Os mais conhecidos são os brancos frutados albariño das Rías Baixas DO (Denominación de Orígen), cuja criativa e pequena “capital”, Cambados, foi escolhida como Cidade Europeia do Vinho de 2017 (facebook.com/Cambados-Ciudad-Europea-del-Vino). Mas você não deve perder os tintos mencía das encostas íngremes de morros da Ribeira Sacra DO, ou os brancos de Ribeiro. Muitas vinícolas galegas recebem visitantes para degustações e/ou tours.

Arte na pedra

© John Noble / Lonely Planet

Nada de vilas caiadas ali. Nesses climas úmidos do norte, são as rochas que aguentam melhor as forças da natureza. (Sim, a reputação de chuvosa da Galiza é justificada, mas você pode facilmente conseguir um curto período de sol e calor e, caso contrário, as chuvas frequentemente serão espaçadas por intervalos ensolarados.)

Há dois milênios, os galegos fortificaram a cidade romana de Lucus Augusti (hoje Lugo) com um circuito de 2km de muros de pedra e 85 torres que ainda se mantêm firmes atualmente. Há cerca de 800 anos, um pedreiro, conhecido simplesmente como Maestro Mateo, entalhou o pórtico da Catedral de Santiago de Compostela com 200 esculturas bíblicas que se somam a uma das maiores obras da arte românica. Quase não há uma vila que não seja adornada por uma antiga igrejinha de pedra. Mansões com séculos de idade salpicam o interior, e algumas delas estão agora entre os lugares mais deliciosos da Galiza para hospedagem.

As beiras das estradas são decoradas com belas cruzes entalhadas em pedras, conhecidas como cruceiros; uma forma arte característica da Galiza que chega à sua expressão máxima no Cruceiro de Hío, do século 19, delicadamente esculpido com cenas importantes do cristianismo, desde Adão e Eva até a crucificação. Armazéns de grãos (hórreos) feitos de pedra e em suportes de pedra são outra característica pitoresca do interior; o maior hórreo, em Carnota, tem 34,5 metros de comprimento.

Um povo diferente

Os galeses se veem como celtas, diferentes dos outros espanhóis, buscando suas origens em uma onda de migração vinda do leste no primeiro milênio AC, e fortificações daquele período, conhecidas como castros, pincelam a paisagem. O cênico Monte de Santa Trega, no canto mais ao sudoeste da Galiza, oferece os exemplos mais espetaculares dessas relíquias.

O idioma da Galiza, galego, é, como o português e o castelhano, uma língua latina derivada do latim coloquial falado na época dos romanos; mas também inclui muitas palavras de origem celta, não latina.

A flor da cultura celta hoje é a música galega, liderada pela gaita de fole (gaita). Músicos importantes, como Carlos Núñez e Susana Seivane, são os heróis do folk galego. O som agudo dos gaitistas se espalha pela grande praça de Santiago de Compostela, Praza do Obradoiro, todos os dias. Para apresentações memoráveis de música folk galega, mergulhe na Casa das Crechas de Santiago em uma noite de quarta-feira. Se estiver por lá em meados de julho, pode seguir para as Rías Altas e participar do Festival Ortigueira de quatro dias, que reúne músicos de todo o mundo celta.

Este artigo foi publicado em Setembro de 2017 e foi atualizado em Setembro de 2017.