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Madagascar: uma ilha diferente de todas as outras

A ilha de Madagascar se desenvolveu de maneira esplêndida

Localizada no Oceano Índico, perto da costa sudeste da África, a ilha de Madagascar se desenvolveu de maneira esplêndida, em isolamento, por mais de 80 milhões de anos; o resultado disso é um mundo singular e maravilhoso, cheio de árvores de ponta-cabeça, florestas de pedras e, é claro, lêmures.

Venha conosco em uma jornada por esse destino rico em vida selvagem que nunca deixa de surpreender.

Kirindy e os baobás

Comece sua viagem no oeste experimentando encontros com animais e uma caminhada em meio a árvores icônicas

O guia Jean Baptiste passeia alegremente pela floresta, os braços balançando, os chinelos fazendo barulho. Durante a última hora, ele abriu uma rota entre um emaranhado de caminhos, todos idênticos, parando para mostrar criaturas escondidas na vegetação baixa: uma cobra parecendo um galho aqui, um caramujo do tamanho de uma mão ali.

É necessário algum tempo para localizar o lêmure que ele viu com uma olhada rápida, mas, após muita gesticulação (“à esquerda da bifurcação, embaixo do segundo galho, não, não esse galho, mais para baixo”), lá está: um lêmure-esportivo, sua cabeça de ursinho de pelúcia e olhos castanhos esbugalhados espiando do buraco de uma árvore. A visão abre as comportas para uma abundância de encontros na floresta de Kirindy.

Alguns passos à frente, um sifaka de Verreaux preto e branco aparece bem acima do chão, balançando-se entre as copas das árvores com a elegância de um trapezista, a cabecinha do seu filhote saindo do pelo da sua barriga. Em uma clareira por perto, o gutural “uop-uop” de Jean Baptiste é um chamado irresistível para uma família de lêmures-de-barriga-vermelha, e eles logo descem das árvores para inspecionar seus visitantes humanos.

Os moradores de Kirindy montaram seu lar nos restos da última floresta decídua seca da costa oeste de Madagascar. Ela abriga oito espécies de lêmures... e também a única criatura do país que salivam quando veem um. A floresta é um dos melhores lugares para ver o único predador dos lêmures: a (ameaçada de extinção) fossa.

Três desses animais passaram o dia no acampamento do centro de pesquisa ecológica de Kirindy. Um por um, eles saíram sorrateiramente de baixo de uma cabana, espreguiçando-se e bocejando sob o sol, antes de se agacharem na terra. Parecem uma terrível mistura genética entre um cachorro e uma doninha, com pelo marrom acinzentado, olhos amarelos e uma cauda tão longa quanto seu corpo. Mamy Ramparany, que gerencia o centro, preferiria que eles não se sentissem tão em casa ali. “Um dos maiores problemas para eles”, diz, abaixando para verificar outra fossa embaixo da cabana, “é a destruição do seu habitat por conta da agricultura e do corte de árvores. Talvez venham aqui porque não têm comida suficiente.”

Mamy observa as criaturas se levantarem e avançarem silenciosas para dentro da floresta. “Esse é o desafio de conservação em Madagascar, resolver como as pessoas podem lucrar com a floresta sem destruí-la”, ele fala. “Mas é um desafio emocionante. Enquanto restarem animais, haverá esperança.”

As árvores de troncos grossos e topos espigados que se erguem incongruentemente pelo mato baixo de Kirindy dão uma ideia da natureza desse desafio. São baobás – “mães da Floresta” em malgaxe – e a região já foi cheia deles. Perdidos para o desflorestamento e a agricultura ao longo dos séculos, agora é comum aparecerem sozinhos, troncos grossos como casas, elevando-se acima da terra queimada e limpa pelo corte e pelo fogo.

Cerca de 40 km ao sul de Kirindy, a Avenida dos Baobás é uma orgulhosa lembrança do que foi perdido. Ao amanhecer, uma névoa espessa está acomodada sobre a estrada, e os cerca de 20 baobás que a contornam – alguns com 600 anos de idade – são reduzidos a silhuetas obscurecidas. Fazendeiros emergem da neblina, carregando segadeiras e machados e guiando um rebanho de zebus, que param para coçar seus flancos nos troncos retorcidos das árvores. Fogueiras são acesas do lado de fora de casas de barro ao longo da estrada, panelas enegrecidas colocadas sobre elas, prontas para o cozimento do dia. Conforme o sol se ergue, a névoa se dissipa. Mais tráfego aparece na estrada: jipes a caminho da cidade principal, Morondava, motocicletas com colchões equilibrados no guidão. À beira da estrada, revelados pela primeira vez à luz da manhã, estão 10 pequenos cercados. Dentro, há frágeis baobás jovens, quase nem um centímetro de espessura e com meio metro de altura; pequeninos ao lado das velhas árvores à sua volta, mas, de qualquer forma, um sinal de um futuro melhor.

O caminho para Tsingy

© Justin Foulkes / Lonely Planet

A viagem é parte importante da Aventura em Madagascar e isso fica mais claro do que nunca na colorida jornada ao longo da esburacada estrada 8A de Kirindy para o norte  

“Além de sua biodiversidade única, Madagascar também é conhecida por suas estradas ruins.” É o que diz o guia turístico local Dennis Rakotoson ao subir no jipe. Ele não está sorrindo.

Com menos de 20% da sua rede de estradas asfaltados, ir do ponto A ao ponto B em Madagascar raramente é um caminho reto. O Google Maps vai lhe dizer que é uma viagem de três horas de Kirindy pela estrada 8a até Bekopaka, cerca de 160 km ao norte. O Google Maps está errado – muito, muito errado –, mas ele também não lhe diz que um dia viajando pela rota é pelo menos tão emocionante quanto um dia na floresta com uma família de lêmures.

Pela maior parte, a 8A é mais uma pista de lama cheia de sulcos do que uma estrada. Ela logo deixa para trás os campos de arroz em volta da avenida dos Baobás, suas linhas verdes bem-feitas aradas por zebus e cruzadas por patos barulhentos. O horizonte fica mais seco, arbustos contornando a beira da pista cobertos de areia jogada pelos veículos que passam, como se alguém tivesse atirado um balde de pó laranja por cima deles. Grandes manchas de terra escurecida ainda soltam fumaça por causa dos recentes desmatamentos na floresta.

No começo da manhã, crianças vagam pela 8A a caminho da escola, chutando bolas de futebol na terra. Mulheres com saias coloridas marcham entre as vilas, com fardos de milho ou lenha equilibrados na cabeça e os rostos cobertos de uma pasta feita de tronco de tamarindeiro, para evitar o sol. As famílias lavam suas roupas nos riachos rasos, as peças secando nos troncos, ou se sacolejam em carrinhos de madeira atrás dos zebus, que se arrastam lentamente com seus longos chifres e corcova parecida com as dos camelos.

“Os malgaxes são muito apegados aos seus zebus”, conta Dennis, inclinando-se sobre o painel conforme o jipe contorna um dos muitos buracos do tamanho de piscinas infantis. “Eles são usados como transporte nos campos, é claro, mas também em rituais, cerimônias póstumas e para tratamentos medicinais. Acredita-se que se você esfregar o óleo da corcova deles em sua pele, você vai ficar muito forte.”

Na metade da jornada, a estrada acaba, cortada pela grande lesma marrom que é o rio Tsiribihina. Os jipes fazem manobras cuidadosas em pranchas para entrarem nas balsas de design maluco, que parecem feitas de pedaços aleatórios de metal presos com cordas. Todos a bordo, as balsas passam barulhentas por pessoas em canoas de madeira esculpidas a mão na jornada de uma hora para Belo sur Tsiribihina, na margem oposta. No começo da tarde, o mercado da cidade está em atividade total, e comerciantes se sentam ao lado de pilhas de batata doce, cana-de-açúcar, pimenta seca, camarões fritos e corcovas de zebu, abanando as mãos para afastar grandes moscas dos seus produtos.

“A estrada piora a partir daqui”, diz Dennis, conforme a 8A sai da cidade. Ela está parcialmente desmoronada em alguns lugares, e serpenteia em novas rotas ao redor de árvores caídas e buracos cheios de água.

Conforme o calor intenso do dia começa a diminuir, a agitação aumenta nas vilas à beira da estrada. Homens cortam terra na forma de tijolos e ceifam junco para a construção de casas, enquanto suas esposas batem o arroz ritmicamente com varas em pilões enormes, ao lado delas, perus esperam ansiosos. Crianças correm em direção a todos os veículos que passam para espiar dentro, praticando suas habilidades com idiomas estrangeiros ao fazerem pedidos educados por canetas ou bombons.

Quando o jipe estaciona na última parada em Bekopaka, depois de uma última travessia de rio e muitas paradas para deixar uma ave coua gigante supercolorida, um rebanho de bodes ou um camaleão nervoso cruzarem a estrada. O sol começa a se pôr em meio às árvores do mangue.

A jornada ao longo da 8A levou mais de 11 horas, mas, talvez, não seja tão ruim dar meia volta e fazer tudo de novo.

Tsingy de Bemaraha

© Justin Foulkes / Lonely Planet

Equipe-se para alguns dias escalando no parque nacional mais incomum de Madagascar

Em Bekopaka, três menininhos estão tentando derrubar mangas de uma árvore com uma vareta. Em volta deles, jipes estacionam ao lado de carroças de zebus, os passageiros saltando para esticar as pernas antes de seguirem até um pequeno edifício na vila. Estão lá para reservarem ingressos do Parque Nacional de Tsingy de Bemaraha, motivo pelo qual a maioria das pessoas viaja pela estrada 8A saindo de Morondava.

O parque é dividido em duas seções, Petit e Grand, sendo que a parte menor fica logo ao atrás do edifício. O guia Charles Andriasy lidera o caminho, apertando-se por uma passagem estreita, antes de soltar um aviso: “Esta área é muito sagrada. Há muitos túmulos aqui; vocês têm que respeitar os mortos”. Além disso, os três meninos que incomodam as mangas seriam incentivados a não entrarem lá, devido a crença local de que as crianças têm mais probabilidade de encontrar um fantasma lá.

Há aproximadamente 150 milhões de anos, a região toda estava sob o mar; quando a água recuou, deixou para trás uma paisagem de outro mundo, com cavernas, picos de calcário e fósseis de animais marinhos extintos ainda visíveis em sua superfície. A passagem dos séculos acrescentou uma outra decoração às rochas: ramos de figueiras estranguladoras se enrolam em torno delas e entram nas suas fendas; lagoas escuras de água escondem enguias e caranguejos; e gigantes teias de aranha de seda dourada se esticam em espirais entre os picos.

Uma série de cordas, escadas e pontes abrem caminho para os visitantes, seguindo uma rota que se retorce subindo, rodeando e passando por cima das rochas; desde buracos fundos, que nunca viram o sol, até plataformas equilibradas precariamente em picos de calcário. Poupas de Madagascar e águias-pescadoras-africanas mergulham acima dessa floresta cinza e espigada, e os sifakas-de-decken, com rostos pretos espiando em meio a seus casacos de pele brancos, chegam pulando, muito mais confortável entre as rochas afiadas do que nós humanos.

A difícil rota pelo Petit Tsingy é apenas um treino para o que viria a cerca de 16 km de distância dali, na segunda parte do parque. No Grand Tsingy, Charles ajusta seu arnês de escalada e verifica seus mosquetões antes de começar a trilha. Ela se inicia com uma fácil subida em meio à floresta, enganando a todos, com os chamados de sifakas distantes ecoando pela árvores e papagaios-pretos disparando no ar.

O caminho chega a uma parada abrupta em um penhasco, cujo topo não pode ser visto do chão. Uma série de pregos está presa na face da rocha por todo o caminho, um fio grosso passado entre eles. Charles prende seus mosquetões no primeiro fio e se puxa para uma plataforma estreita. São longos 60 metros subindo, prendendo de novo e de novo os mosquetões, encontrando um lugar firme para apoiar os pés em finos degraus de pedra cortados no calcário e passando lentamente entre tábuas que cobrem fissuras nas rochas. “Se você for devagar, devagar, não precisa ter medo”, Charles grita de cima. “Devagar, devagar, e você consegue ver o caminho na sua frente.” O tamanho do Grand Tsingy é revelado quando chegamos ao topo, com vistas por cima dos outros picos estendendo-se por uma grande distância na floresta. São necessárias várias horas para andar pelo resto do parque, deslizando em volta das rochas, dando passinhos pequenos sobre pontes de cordas comicamente barulhentas, descendo para cavernas vastas e rastejando por túneis.

Ao emergir de volta na floresta, com um sol de rachar, tudo está silencioso. Na bifurcação dos troncos de uma árvore, um lêmure se inquieta durante o sono, talvez perturbado por um sonho. Uma sifaka fêmea, com os braços descansando nos joelhos e a cauda longa pendurada em meio aos galhos, olha fixo para baixo. Ela observa por um tempo, depois seus olhos laranja se fecham lentamente. “A floresta está certa”, diz Charles, limpando a testa do cansaço do dia. “Hora do descanso.”

Parque Nacional de Andasibe-Mantadia

© Justin Foulkes / Lonely Planet  

Conheça os lêmures nas florestas úmidas e cobertas de névoa do leste de Madagascar

Faz frio no planalto central de Madagascar. Manchas de nuvens flutuam entre os morros envoltos em eucaliptos, liquidâmbares, azaleias e magnólias. Penduradas em seus galhos estão gotas d’água inchadas, prontas para cair no chão úmido. Sapos arborícolas coaxam e chilreiam anunciando sua presença em meio à garoa, fazendo companhia para as lagartixas-satânicas-cauda-de-folha e as aranhas de patas longas abaixo do dossel das árvores.

Luc Rajeriosa abre caminho em meio à vegetação baixa, pisando pelos ramos de diferentes plantas e colocando de lado os galhos do tamanho de canoas de enormes árvores. Ele para, puxa seu chapéu de palha para a parte de trás da cabeça e encara o topo das árvores.

“Eles estão muito longe”, sussurra, franzindo as sobrancelhas. “Mas, mesmo assim, devemos ser bem silenciosos.” Ele mergulha em um matagal de bambu. A cada passo, seu pé afunda em uma massa grudenta de folhagem apodrecida. No topo de um morro íngreme, ele para de novo. Em poucos minutos, um lamento agudo se eleva, diminui e se eleva de novo. Mais lamentos se juntam a ele, como se uma orquestra com trompetes quebrados tivesse entrado na floresta.

“Vocês estão ouvindo a música dos indris”, diz Luc, e ele olha mais uma vez para os topos das árvores. Três silhuetas redondas estão encolhidas nos galhos superiores. Braços e pernas aparecem nos corpos peludos e os indris ganham forma: pés e mãos pretos, pernas e braços brancos, orelha arredondadas emoldurando um rosto preto e uma longa cauda preta. As três criaturas – um macho, uma fêmea e seu bebê – começam a se limpar na chuva fina, beliscando os pelos umas das outras com dedos ossudos. O macho se joga em uma árvore próxima e sua família logo vai ficar com ele. Eles saem balançando pelos galhos e desaparecem.

“Os moradores não machucam os indris”, afirma Luc, seguindo em uma lenta caçada. “É um tabu. Nós os chamamos de babakoto, ou o pai do homem. A crença é de que, um dia, há muito tempo, os indris salvaram um menininho perdido na floresta. Por isso, sempre vamos cuidar deles.”

Os indris são os maiores primaras de Madagascar (o lêmure gigante, do tamanho de um gorila macho, está extinto há cerca de 600 anos). Até 70 grupos de indris moram no Parque Nacional de Andasibe-Mantadia, e a floresta úmida regularmente ecoa seus chamados territoriais, o som viajando por mais de 1,5km. É um pouco complicado vê-los, mas o Andasibe tem outras distrações caso avistá-los não seja possível.

Há os sifakas, de rosto branco peludo e braços e pernas ruivos, que só podem ser encontrados nessa parte do país; os besouros-girafa, cabeças carregadas em pescoços com quatro vezes o comprimento de seus corpos vermelhos; os lêmures-de-bambu fofinhos arrancando folhas das plantas que lhes deram seu nome; e boas de Madagascar, cobras que se enrolam em volta dos troncos de jacarandás baronii, com suas línguas azuis aparecendo entre seus os olhos negros.

Porém, Luc não é o tipo de homem que pode ser afastado da sua busca pelos babakotos, apesar das várias horas de caminhada difícil pela floresta. “Eu sou como os indris”, ele diz, olhando brevemente para o sol nas margens de um pequeno lago. “Preciso vir para a floresta todos os dias.” Ele volta para o mato e logo some de vista.

Canal des Pangalanes

© Justin Foulkes / Lonely Planet

É hora de relaxar com um passeio preguiçoso ao longo de canais cercados de folhas e lagos contornados por praias, à procura dos esquivos aie-aie

A meia lua joga uma luz prateada pela floresta. Vagalumes piscam em meio às árvores, seus galhos lançando sombras negras que entortam e oscilam ao vento. Não há nenhum som além do murmúrio suave do Oceano Índico batendo na costa a quase 1,5km de distância. Há um farfalhar repentino, e uma forma escura aparece em uma árvore próxima. O feixe de luz da lanterna vira para cima e revela um rato-arborícola. Ele olha de volta, surpreso, e depois sai correndo.

Mas os rato-arborícolas não são o principal motivo de as pessoas irem até lá. Há uma longa espera no escuro pela atração principal. Quando ela vem, vem em silêncio, um monstro se arrastando para fora das sombras em um pesadelo. Em um segundo, não está ali, e, no segundo seguinte, está: uma mistura esquisita de olhos vermelhos e vesgos, pelo com falhas, orelhas pretas enormes e bagunçadas, dentes tortos e respiração rouca. Seus dedos longos cutucam dentro de um coco, arrancando a polpa e a enfiando com barulho na boca.

O aie-aie, com sua aparência infeliz, já foi tão raro que se pensou que estivesse extinto. A espécie ainda está na lista das ameaçadas e é protegida ali, em uma pequena reserva em uma ilha no leste de Madagascar. “As pessoas costumavam matar os aie-aie”, conta o capitão, Faro Razafimanantena, afastando-se da ilha em seu longo barco. “Acreditavam que, se você visse um deles na natureza, era um sinal de perigo. As pessoas achavam que não viveriam por muito tempo depois disso.”

O visual selvagem do aie-aie não combina nem um pouco com os arredores certamente não-assustadores da sua casa, no sistema de Pangalanes, uma série de cursos d’água naturais e artificiais que se estendem por 640km ao longo da costa. Construídos no século 19, os canais ainda se agitam de atividade. Ao amanhecer, barcos de carga viajam até a cidade principal, Toamasina, cheios de carvão, madeira e as folhas da árvore-do-viajante com formato de leque. Pescadores remam até suas armadilhas em pirogas de madeira, puxando redes para ver se têm tilápias. Um vislumbre de laranja e azul revela a concorrência por uma pescada na forma de um martim-pescador de Madagascar.

“Para chegar a qualquer lugar, para fazer qualquer coisa, você vai de barco”, diz Faro, a mão no motor externo conforme sua embarcação desliza ao longo das águas tranquilas de um canal estreito, a vegetação de suas margens perfeitamente espelhadas embaixo. “Todos os negócios aqui são feitos na água.” Ela grita um cumprimento para mulheres sentadas na parte rasa, esfregando panelas de latão enquanto seus filhos se divertem ali perto. Fumaça vinda de vilas atrás delas sobe por entre as árvores, onde camarões-d’água-doce são assados sobre o fogo.

“Eu gosto de explorar”, continua Faro, enquanto manobra o barco por outra passagem, suas margens explodindo de pândanos de aparência pré-histórica. “Nada é melhor do que a liberdade de estar ao ar livre.” Os canais dão lugar a rios largos – a água ganhando ondas – e, por fim, a lagos amplos, suas margens contornadas por praias de areia fofa. Os lêmures às vezes chegam ao limite da água para beber, porém não há sinal deles hoje; apenas uma garça que decola do toco de um eucalipto e sobe acima das árvores. O céu está se preparando para um espetáculo ao pôr-do-sol, jogando tons de rosa, violeta e dourado nas águas do lago.

Se, como supõe a superstição local, ter a visão fugidia de um aie-aie significa que a morte chegará logo, ela parece muito distante esta noite.

Este artigo apareceu na edição de abril de 2017 da revista Lonely Planet Traveller. Amanda Canning viajou para Madagascar com o apoio da Natural World Safaris (naturalworldsafaris.com). Os colaboradores da Lonely Planet não aceitam presentes em troca de cobertura positiva.

Este artigo foi publicado em Setembro de 2017 e foi atualizado em Setembro de 2017.