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Escape da vida moderna no interior da Moldávia

Aldeia de Butuceni

Ao longo das estradas de Chişinău, caminhões urram e motocicletas dançam cruzando as quatro pistas. Enquanto observam esse tráfego caótico, meus companheiros de viagem brigam para definir quem era o mais capaz de dirigir nosso carro saindo da capital da Moldávia. Porém, assim que o veículo se arrasta para além do centro, o cenário muda de vias entupidas para cavalos levando carrinhos de madeira.

Em um instante, a civilização moderna parece ficar para trás. Campos de gado se desenrolam pelos morros baixos da Moldávia, e trabalhadores das fazendas tiram água de poços à beira da estrada. Quanto aos carrinhos de feno levados por cavalos, eles sacodem pelo caminho em um ritmo surpreendentemente rápido, e eu suspeito que são mais resistentes do que nosso pequeno carro alugado.

Explore o país esquecido pelo tempo

Apesar dos voos baratos da Europa ocidental para Chişinău, os turistas ainda não estão descendo aos montes nesse paizinho apertado entre a Romênia e a Ucrânia. Após a Segunda Guerra Mundial, a Moldávia se tornou parte da União Soviética por cinco décadas; desde então, o país continua ignorado por ser considerado uma lembrança triste daquele período. É claro que a Chişinău moderna tem marcos fortes da era soviética – como o prédio malcuidado do circo estatal (Strada Circului 33) e os tanques de guerra reunidos do lado de fora do Museu do Exército –, embora a cidade tenha um sopro de ar fresco com os parques cheios de fontes e as alamedas contornadas por árvores.

Porém, se Chişinău parece ancorada nos anos 1970, o resto da Moldávia congelou no tempo séculos antes. Na nossa viagem para o norte, mulheres com lenços na cabeça estão caminhando na estrada e balançando buquês de flores colhidas à mão. Estão vendendo flores silvestres para os motoristas que passam, mas, por um momento, parece que elas estão nos chamando para entrar no interior preso no passado da Moldávia.

Trilhas nas estradas solitárias do Velho Orhei

Orheiul Vechi © Alexander Spatari / Getty Images​

Nosso destino é Orhei, um distrito de pastos e florestas, cerca de 45km ao norte de Chişinău. O carro segue com cuidado atravessando vilas tranquilas como Ivancea e Brăneşti e, em pouco tempo, podemos ver despenhadeiros de giz erguendo-se à nossa vista.

Como um par de mãos formando um copo, esses despenhadeiros envolvem o ponto mais sagrado da Moldávia, Orheiul Vechi (“Velho Orhei”). Desde o século 13, monges se colocam em contemplação silenciosa dentro de cavernas na face das rochas, uma prática que resistiu por cerca de 500 anos. Ancorando esse lugar sagrado está a Igreja da Ascenção de Santa Maria (1905), cuja cúpula cintilante reflete a luz do sol de longe, do outro lado do rio Răut.

Os monges que moram em cavernas já se foram, mas Orheiul Vechi ainda é um lugar de contemplação: você pode andar por quilômetros sem ver uma alma viva. Conforme eu cruzo a estrada Ivancea–Orheiul Vechi, nem um único veículo interrompe meu caminho; um viajante ocasional, levando vários trabalhadores rurais em uma carroça puxada por cavalo, passa fazendo barulho e me vira um olhar de surpresa.

Nas vilas, as casas são pintadas de azul-claro e verde, tendo ao fundo espetaculares despenhadeiros mesclados de tons claros e escuros. Treliças de jardim estão lotadas de videiras, e perus barulhentos descansam à sua sombra. Diante dessa cena arrancada de um conto de fadas pastoral, é impossível não diminuir o ritmo da vida nas vilas da Moldávia.

Experimente a vida na fazenda em Trebujeni

Aldeia de Trebujeni © Shevchenko Andrey / Shutterstock​

Trebujeni, logo ao sudeste de Orheiul Vechi, é acessada por estradas de terra esburacadas. A maioria esmagadora de moradores desse trio de vilas cria gado, e o fraco fluxo de peregrinos e visitantes não chega a criar uma indústria de turismo. Entretanto, há um pequeno punhado de lugares onde se hospedar, sinalizados com placas decorativamente entalhas com a palavra pensiunea (pousada) balançando no quintal da frente.

Enquanto dirigimos hesitantes, entrando Trebujeni, gansos fogem do nosso caminho e somos surpreendidos por um cavalo de vez em quando. Em algum lugar ao longo das estradas esburacadas, uma das calotas do nosso carro balança e cai do pneu.

Nossa pousada ali, Casa din Lunca (+373 794 55 100, Trebujeni), tem um ar rústico que combina com o cenário, do portão rangendo até o bordado de vovó; mas é um lugar pouco limpo. Eu jogo uma mochila sobre cama e nuvens de poeira sobem das cobertas. Inspecionamos um quintal nos fundos onde gatos escandalosos estão à espreita, os tapetes tão desgastados quanto o fraco sinal de wi-fi e uma piscina solitária e vazia.

“Estarei no meu quarto”, suspira minha companheira de viagem, Jane, “com meu livro”.

Nosso humor melhora quando a anfitriã da casa coloca pratos cheios de comida do campo em uma mesa de jantar do lado de fora. Há travessas de madeira com carne de aroma defumado e jarros volumosos de vinho tinto azedo abrem espaço entre saladas e sour cream. Cortamos mămăligă, um bolo de polenta, em fatias fofas.

Enquanto aproveitamos o banquete, a Moldávia rural está lentamente lançando sua magia. À sombra de uma tenda coberta de videiras, com os sons de animais de fazenda, o clima parece uma troca justa pela calota perdida do nosso carro.

Nas pontas dos pés em monastérios misteriosos

O portão de entrada do Mosteiro de Saharna © Andrienko Anastasiya / Shutterstock​

Ao norte de Trebujeni, um diferente tipo de maravilha preenche o ar. Cerca de 93% dos moldávios pertencem à igreja ortodoxa, e os monastérios do país servem como para-raios para a intensa espiritualidade.

Alguns dos monastérios mais bonitos ficam empoleirados ao lado do rio Dniester, um risco cor de ardósia entre a Moldávia e a república separatista da Transnístria. Trinta quilômetros ao norte de Trebujeni fica Tipova, o maior e um dos mais antigos monastérios em caverna da Moldávia. Como em Orheiul Vechi, a área é entalhada por grutas que já foram esconderijos de monges. Mas o local tem outros mitos também. De acordo como folclore local, Orfeu se aventurou em Tipova; outras histórias dizem que esse poeta grego das lendas encontrou seu portal para o mundo subterrâneo através de uma das cavernas de Tipova.

Mais 12km ao norte, aconchegadas em meio a morros totalmente florestados, estão as cúpulas douradas do Monastério Saharna. Enquanto passeamos pelos seus jardins, os homens que cuidam do lugar, com as mãos no solo, levantam a cabeça com curiosidade dos canteiros de tulipas. Mesmo nossos sussurros parecem altos.

Porém, uma vez por semana, Saharna é ensurdecedor. O local ganhou notoriedade como ponto de missas de exorcismo: durante reuniões semanais à meia-noite, crentes de toda a Moldávia chegam para se livrarem de espíritos malignos em cerimônias onde berros histéricos interrompem o monótono canto dos padres.

Enquanto andamos à sombra da pequena e graciosa torre da igreja do Saharna, entre canteiros belamente cuidados, é difícil imaginar tal cacofonia se desenrolando ali. No entanto, entre lendas sussurradas e cavernas espirituais, fica claro que o mistério é uma forte característica da Moldávia. Esse canto sem verniz da Europa vai roubar seu coração, suas calotas e seu desejo de voltar à vida moderna.

Este artigo foi publicado em Junho de 2017 e foi atualizado em Junho de 2017.