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Turismo habitacional português: história e charme no Minho

Gaía Passarelli e o brasão dos Calheiros

Gaía Passarelli

No Brasil é comum usar apenas o sobrenome paterno. Mas foi meu nome do meio, por parte de mãe, que me levou até Ponte de Lima, a capital da região do Minho, no norte de Portugal.

Numa terça-feira qualquer, sentada na ensolarada praça central e protegida pela sombra de antigas casas de pedra, tomei duas xícaras de café com o simpático herdeiro da Quinta dos Calheiros. Tinha conhecido o jovem conde (loiro, alto, olhos azuis, é “a cara do Príncipe Harry” segundo o Conde pai) horas antes, no café da manhã do Paço de Calheiros, a propriedade da família. Foi o conde quem me viu e pediu permissão para sentar. Queria saber como é “voltar para casa”.

Expliquei que o Oceano Atlântico e alguns séculos de história impediam que eu considerasse Ponte de Lima algo como um lar. Sobrenomes europeus são comuns no Brasil e é normal sabermos quase nada sobre eles. Em muitos casos não temos certeza nem se o nome é real – sua família podia estar vindo da Espanha e foi cadastrada como portuguesa na chegada do navio. Às vezes eu tenho sangue turco e por um incidente burocrático (acidental ou com propósito) jamais saberei.

Isso não torna menos incrível a experiência de estar no Paço de Calheiros propriedade histórica nos arredores de Ponte de Lima que está com a família desde meados do século XV. O Paço é uma das joias da Solares de Portugal, iniciativa fundada há 25 anos pelo Conde Francisco Calheiros para preservar propriedades históricas lusas. Cheguei ali meio sem programar nem saber direito o que é um “paço” (depois soube: é sinônimo de palácio). Com curiosidade e cara de pau, fui ficando, conversando e conhecendo, tentando encontrar o que existe desse lugar em mim.

É o Conde Francisco Calheiros quem recebe os hóspedes no enorme portão de metal na entrada da propriedade. Um senhor elegante, com lenço de seda no bolso do paletó, que exibe orgulhoso o brasão da família bordado em veludo e pendurado no hall de entrada, logo acima da longa escada de pedra.

O imponente casarão dos Calheiros é parcialmente aberto aos hóspedes, que podem ficar em um dos quartos históricos que hospedaram membros da nobreza lusa. É fácil se sentir numa viagem ao passado: camas com dorsal, banheiros com azulejos azuis e brancos, enormes portas que abrem rangendo para dar vista a jardins.

O vasto terraço do casarão dá vista para a pequena Ponte de Lima ao longe, cerca de meia hora de caminhada morro abaixo. Ao redor, parreiras e oliveiras garantem a produção de vinho e azeite da quinta — palavra lusa para fazenda.

A ampla e iluminada cozinha é o coração da casa, branca e com enormes janelas. Por uma pequena porta se chega à cozinha antiga, onde um enorme forno de pedra ainda hoje assa os pães para o café da manhã com produtos locais como geleias e iogurte.

FotoFlickr

 

Os Solares de Portugal

O palácio está com os Calheiros desde 1540, como prova uma placa gótica na entrada da propriedade. O Conde Francisco foi responsável por reformar a propriedade, fundando a Solares de Portugal uma companhia especializada em turismo habitacional. O grupo conta com algo em torno de 100 habitações espalhadas em todo o país (e nas ilhas portuguesas) para todos os gostos e bolsos: de antigos palácios a quintas, de casas centenárias a chalés na beira do mar.

O Paço de Calheiros entra na categoria “propriedade histórica” e é uma das maiores e mais bem preservadas casas do grupo, com atrativos como uma bela piscina panorâmica e suítes modernas recém-construídas. Não é como ficar num bed and breakfast e não é hotel de luxo. O turismo habitacional não prevê coisas como concierge à disposição ou serviço de quarto. É um tipo de turismo determinado pela interação entre hóspede e dono da casa.

No caso de Portugal, isso significa aproveitar de boa comida e boas histórias, de preferência regadas com o farto (e excelente e barato) vinho local. Para turistas brasileiros em Portugal, a questão da língua ajuda muito e oferece uma chance de troca cultural que nós não encontramos em nenhum outro lugar.

FotoFlickr

 

Eu nem precisava do sobrenome materno para tentar arrancar histórias dos Calheiros. O Conde é alguém que gosta de conversar sobre a origem da família. Ponte de Lima é muito mais antiga que o Paço (romanos passaram pelo rio Lima na época do Império), mas a família ganhou título de nobreza participando da defesa da cidade ao longo da história, como atesta uma placa gótica datada de 1450, hoje na entrada da propriedade. Ao longo dos séculos o palácio passou por reformas, expansões, obras e períodos de abandono. Foi abandonado quando Portugal virou república e durante a ditadura de Salazar. O conde, que viveu no Brasil (onde a família Calheiros chama Oiticica) retornou à Ponte de Lima e há vinte e cinco anos começou a elaborar o potencial turístico de seu palácio.

A Ponte de Lima que se vê do Paço é uma graça de cidade, visitada por peregrinos (é uma das paradas principais do Caminho de Santiago português), por amantes do turismo de aventura (a rota do Minho é uma das melhores para fazer mountain bike no país) e de gastronomia (tanto o vinho quanto a carne do gado minhote e o arroz de sarrabulho são tesouros nacionais).

FotoFlickr

 

O turismo histórico também é forte: a vila se orgulha de ser a mais antiga de Portugal. E de manter vivas tradições como a vaca de cordas, que acontece no começo de junho, uma espécie de tourada portuguesa que dura todo o fim de semana e é encerrada com procissão pelas ruas enfeitadas com flores.

Lembrou das ruas paulistas e mineiras enfeitadas para o Corpus Christi? Não é por acaso. Assim como sobrenomes que mudam e receitas que se transformam, as tradições culturais e religiosas do Brasil devem muito àquelas levadas pelos primeiros colonos há quinhentos anos. São esses detalhes que pegamos em conversas com nossos patrícios. Mais uma bem-vinda prova dos lugares, sabores e personagens para descobrir em Portugal.

Ah, quanto à “minha família” distante, digamos que em algum momento tentei fazer uma piada sobre adotar a sobrinha brasileira, mas meu humor canarinho não convenceu. Talvez minha herança esteja mesmo em outra parte do mundo. É algo que terei que descobrir em outra viagem.

 

Gaía Passarelli, 38, escreve sobre música, viagens e a cidade de São Paulo no blog How to Travel Light. Seu nome do meio é Calheiros.

Este artigo foi publicado em Agosto de 2015 e foi atualizado em Agosto de 2015.