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Os 10 insetos mais gostosos do México

Chapulines em Oaxaca

Phillip Tang

Uma vez superado o efeito “arght!” de comer gafanhotos picantes ou molho cremoso de formiga voadora, você enfim abre os seus horizontes para uma culinária de alto valor proteico, orgânica e, definitivamente, saborosa. De verdade. Por séculos, não foi carne que sustentou os guerreiros astecas, mas sim insetos repletos de proteína e sem gordura, além de larvas de mosca. O México possui o maior número de insetos comestíveis do mundo, e muitos deles nem são tão estranhos quando comparados a caviar, camarão e escargot. Aqui estão os bichinhos comestíveis mais comuns do México e onde você pode experimentá-los.

Gusanos (larvas de agave)

 
Shot de mescal e sal de gusano
Foto por javarman3/iStock/ThinkStock

 

Não há inseto mais representativo. É encontrado em bebidas alcoólicas, e a gente sabe bem que pessoas bêbadas são capazes de comer qualquer coisa. Especialmente quando o gosto lembra o de batata frita ou, talvez, de umami (o “quinto sabor” japonês). As larvas, ou vermes, ficam no fundo das garrafas de mescal, como se fossem potes de conserva de outro século. O mescal, por sua vez, é feito com a planta de agave, e os gusanos alimentam-se de suas folhas, que lembram as da babosa. Os vermes são colocados nas garrafas como um certificado dourado (às vezes vermelho) de autenticidade; para capturar apenas alguns gusanos, a planta de agave precisa morrer. Seus corpinhos bêbados filtram o mescal e têm o gosto terroso do México. Alguns juram que os vermezinhos têm poderes afrodisíacos, mas, ao final de uma garrafa de mescal, é bem possível que você já esteja soltinho, soltinho.

Se você não estiver convencido a respeito de suas propriedades afrodisíacas, coma o gusano por seu alto teor proteico, como se fazia no México antes da chegada dos espanhóis. Os que não conseguirem engolir o verme inteiro podem usá-lo para temperar o bife com o sal de gusano, uma mistura de sal e gusanos desidratados. Ou, para uma refeição, digamos, mais completa, experimente gusanos fritos como acompanhamento da guacamole no Tirol, em Tlaxcala.

Jumiles (maria-fedida)

Se você não gosta da ideia de insetos vivos se mexendo na sua boca, pare de ler agora. Na cidadezinha de Taxco, que já nadou em dinheiro graças às minas de prata, ao sul da Cidade do México, os jumiles são trazidos de seu habitat, nas montanhas, para rechear tacos e ganhar o gostinho azedo do limão. Conforme você morde, eles continuam a se mexer: mesmo sem cabeça, esses besourinhos continuam a se movimentar, então é possível que você precise de uma tequila bem forte para conseguir engolir as suas patinhas hiperativas. Eles têm um sabor forte, como uma mistura de menta e canela, e podem ser um pouco adocicados ou amargos (algo como tronco de árvore fresco). O odor forte que exalam é suficiente para fazer muita gente torcer o nariz, mas essa mesma química pode ser a responsável secreta por seu famoso efeito analgésico. Agora que você já está se sentindo mais à vontade com a ideia, aqui vai um detalhe que pode inibir o seu recém-adquirido desejo: os jumiles voam também. Quando é safra de jumiles, experimente-os na Pozolería Tía Calla, em Taxco.

Chicatanas (formigas aladas gigantes)

Quando começa a estação chuvosa em Oaxaca, as formigas com asas do tamanho de moedas invadem o ar para escapar dos formigueiros alagados e buscar comida. Mal sabem que serão capturadas em pleno voo pelos habitantes locais, que as transformam em lanche da tarde. As chicatanas só dão o ar de sua graça uma vez por ano, então as famílias se reúnem em uma espécie de estado de emergência e entusiasmo; as crianças concorrem para ver quem consegue pegar mais (sem sofrer mordidas). 

Eles refogam as formigas gordinhas com limão, tirando as suas cabeças e asas prateadas. Comer uma chicatana inteira pode lotar a sua boca, por isso os Oaxacanos as misturam a uma pasta com pimenta, sal e alho em um molcajete (um pilão de pedra pré-hispânico). Esse mole picante, típico de Oaxaca, ou a salsa de chicatanas (um molho defumado que lembra tahini, com um sabor um pouco queimado e terroso) são espalhados com fartura sobre a tortilla. Você pode experimentar o molho de formigas aladas na Casa Oaxaca, na Cidade de Oaxaca.

Escamoles (ovas de formiga)

Foto por NagyDodo/iStock/ThinkStock

 

Puebla anima-se à medida que março se aproxima: é o início da safra de escamole. Fora do México, o caviar é uma iguaria cara e altamente valorizada na gastronomia. Pois, em Puebla, não são as ovas de peixe que dão água na boca, mas sim as de formiga. A expectativa é pelo sabor amanteigado (que lembra um pouco o de castanhas), das ovas de formiga refogadas com alho, cebola e manteiga, que estouram na boca. Procure não se apegar às pobres formigas, que têm suas casinhas destruídas ao se puxar a raiz das plantas que servem de base para a tequila e o mescal.

A Fonda de Santa Clara (fondadesantaclara.com), um ótimo restaurante decorado com talavera (azulejos artesanais), é o lugar ideal para experimentar as suas escamoles de março a maio. Também serve pratos com gusanos e chapulines. Ou você pode comprar escamoles “para levar” como acompanhamento de gusanos em Tirol, em Tlaxcala. Para uma versão mais pé no chão (ou seja, comida de rua) de escamoles, os habitantes locais criaram um taco em que as ovas são misturadas à guacamole picante. As ovas macias de formiga parecem um risoto de longe e têm uma textura de queijo cottage na boca.

Ahuatle (ovas de mosca aquática)

Também conhecido como “caviar asteca”, o ahuatle é outra comida pré-hispânica feita com ovas de inseto, somando agora mais de 500 anos de história. As larvas de mosca aquática (inseto da família Perlidae) se parecem um pouco com frutos do mar, com sabor similar ao de um patê de camarão. Elas também têm um saudável teor proteico: 93% de proteína por porção.

Você encontra como ingrediente para cozinhar no Mercado de la Merced, na Cidade do México, ou como um lanche vendido na rua nas cercanias da capital, como em Iztapalapa e Xochimilco. Ou sente-se para fazer uma refeição completa, com ahuatle em croquetes de queijo com mole vermelho (molho picante) no Restaurante Chon, onde também há outros insetos comestíveis no cardápio.

 

Chalupas em Xochimilco
Foto por Rafael Ramirez Lee/iStock/ThinkStock

 

Cuchamás (lagartas verdes)

As cuchamás (lagartas verdes) comestíveis têm mais significado para as pessoas de Zapotitlán do que uma simples amostra da culinária local. Há gerações, esse inseto serve de fonte de renda para os que o “colhem” nos arbustos verdes das cidadezinhas desérticas da região e os vendem nos mercados. Esse comércio tem sido praticado por séculos entre os povos Popolocas e Nahuatl. Hoje, as lagartas, que têm o comprimento de um dedo, são pegas em Zapotitlán Salinas para serem vendidas a 100 km de distância, no mercado de San Sebastián Zinacatepec, em Puebla. Lá a quantidade é medida com colheres de cerâmica e servida como um lanchinho crocante.

E, claro, elas também são uma boa ideia de recheio para tacos – sem colesterol e com baixo teor de gordura, ao contrário dos tacos recheados de carne. Se você prefere uma lagarta ainda mais saborosa, você pode grelhá-las com a pimenta chile de arbol, limão e cebola.

Chapulines (gafanhotos)

 

Chapulines em Oaxaca
Foto por Quasarphoto/iStock/ThinkStock

 

Fãs dos gafanhotos secos dizem que estes são insetos limpos, porque nunca tocam o chão, passando a vida pulando de uma folha a outra. Talvez seja por isso que os mexicanos comam mais chapulines do que qualquer outro inseto comestível. Você encontra gafanhotos como petiscos em todo o país – de bares estilosos aos grandes sacos, ao lado dos de amendoim, à beira da estrada. Em geral, eles são temperados com pimenta em pó e limão e têm quase tanta proteína quanto o salmão.

Na Cidade do México, visite o jovial e descolado La Clandestina, em Roma Norte, onde os chapulines salgadinhos são fritos em azeite de oliva e servidos em tigelinhas lotadas. Os gafanhotos crocantes têm um sabor herbal, mas tome cuidado com as suas patinhas serrilhadas, que podem arranhar o seu lábio. O mescal artesanal do La Clandestina combina perfeitamente com os petiscos. Finalize com uma rodela de laranja salpicada com pimenta.

Alacránes (escorpiões)

Na Península de Yucatán, onde fica a popular Cancún, os habitantes locais colocam bacias d’água ao pé da cama para que esses escorpiões negros não os piquem – e os despertem não muito agradavelmente – durante a noite. Poucos locais comem os escorpiões capturados, e você os encontrará mais em palitos. Se conseguir comer, você verá que os alcránes têm um gosto amadeirado.

Libélulas

A sempre mágica mistura de limão e sal garante um tempero simples às larvas desses insetos de quatro asas em Sonora, no extremo norte do México. Você pode comer as libélulas fritas ou simplesmente secas, com uma boa dose de tequila. Dizer que está comendo libélulas parece coisa de fábula, embora não seja lá muito suave, nem substancioso.

Escarabajos (escaravelhos)

Há 88 espécies de besouros no México. Entre a variedade de nomes fantasiosos, estão o besouro-rinoceronte e o gallina ciega (galinha cega), que é, na verdade, um besouro branco que mais parece uma larva gigante. O besouro comestível mais comum é o chahui, que se alimenta das vagens de leguminosas que crescem nas árvores da árvore de mesquite (assim como os coiotes), que crescem em meio ao deserto. O chahui tem um sabor amargo, que desaparece quando é bem grelhado e ganha, assim, um sabor quase de peixe. Os escarabajos são considerados uma iguaria em Hidalgo, Tabasco, Guerrero, Veracruz, Oaxaca, Puebla, Chiapas e Nayarit. Siga a curiosidade de suas papilas gustativas até algum desses muitos lugares, onde você verá crianças locais se esbaldando com os besouros, fazendo “hummm!” em vez de “arght!”.

 

Phillip Tang experimenta de tudo pelo menos uma vez. Ou duas vezes, se temperado com pimenta e limão. Siga os seus comentários sobre tecnologia e viagem, enviados diretamente de sua casa na Cidade do México, pelo Twitter: @philliptang.

Este artigo foi publicado em Novembro de 2014 e foi atualizado em Novembro de 2014.