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Cinco razões para visitar o norte da França em 2014

Lille, França - vamos!

Anita Isalska

O Nord-Pas-de-Calais, diferente de todo o restante do país, tem sido negligenciado por turistas há muito tempo. A região assimilou as piadas sobre o seu clima gelado e seus habitantes um tanto caipiras enquanto se transforma, lentamente, em um destino de primeira, com galerias e museus de arte ousados, vários pontos históricos e um charme rústico irresistível. Aqui estão cinco experiências a não perder no norte da França neste ano.

Burburinho artístico em Lens

A nova galeria do Louvre em Lens (www.louvrelens.fr) teve um primeiro ano movimentado. Primeiro, foi a onda de ceticismo, já que amantes das artes ficaram receosos ao saber que a famosa galeria se estabeleceria em Lens, uma antiga cidade mineiraum tanto fora de mão e tristonha. Depois, veio a controvérsia: um vândalo atacou a grande atração da Louvre-Lens, a pintura Liberdade Conduzindo o Povo, de Delacroix. Mais recentemente, houve medo de que o “efeito Guggenheim” – o extraordinário renascimento de Bilbao desencadeado por sua galeria de arte mundialmente famosa – nunca se concretizasse em Lens.

Mas a verdade é que a Louvre-Lens merece atenção. Toda em alumínio escovado e vidro, sua aparência futurística é um contraste delicioso à austeridade do norte da França. Sua ambiciosa Galerie du Temps cobre milhares de anos de arte em uma única sala. E, embora não tenha havido uma revitalização instantânea na sonolenta Lens, céticos ficarão agradavelmente surpresos. Já os amantes da gastronomia terão motivos para esticar sua estada na cidade depois do fechamento da galeria: os frutos do mar no rústico Au Bouchot (lebouchotlens.extra-flash.com) são excepcionais, e o elegante Le Cesarine (20 av Alfred Maës) serve uma das melhores culinárias locais de Nord-Pas-de-Calais. As paisagens naturais da região também estão começando a chamar a atenção. As “maiores pilhas de escória da Europa” é um orgulho que pode fazer você engasgar com sua cerveja flamenga, mas a verdade é que mais turistas estão explorando as planícies de Lens, moldadas pela história mineradora da região. A menção de Lens faz as sobrancelhas bem desenhadas dos parisienses franzirem, mas não há dúvidas de que essa cidadezinha está emergindo.

Centenário da Primeira Guerra Mundial

Monumentos de guerra e cemitérios no norte da França, como os campos de batalha de Dunkirk, atraem um fluxo constante de visitantes que vêm pagar tributo. Mas o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, neste ano, vai ser marcado por eventos em toda a Europa. Os Flandres, que abrangem a região de Nord-Pas-de-Calais, seus arredores e uma parte da Bélgica, terão um rico calendário de exibições de arte, tributos florais, desfiles e aulas abertas neste ano (veja a programação completa em www.greatwar.co.uk/events/somme-events).

Mas, mesmo que você não esteja programando a sua viagem para algum evento específico, há muitas formas de fazer uma imersão na história da Grande Guerra. Explore a Carrière Wellington, uma rede de túneis subterrâneos em Arras (www.arras.fr/tourisme; apenas em francês). Visite os cemitérios de guerra da região, como o maior desse tipo da França e o ossuário em Notre-Dame de Lorette (www.cheminsdememoire.gouv.fr/en/notre-dame-de-lorette), além do vasto Étaples Military Cemetery (www.cwgc.org). Ou alugue um carro para percorrer o Circuit of Remembrance, uma rota de 70 km pelo norte da França que passa por pontos históricos, entre os quais a cratera de Lochnagar e o Museu Somme em Albert (www.musee-somme-1916.eu).

Seja feliz em Lille

Lille não é mais somente uma parada entre Londres e Bruxelas. Capital de Nord-Pas-de-Calais, essa cidade simpática tem conquistador os visitantes com o seu charme antigo, ótimos restaurantes e, sim, os difamados mercados de inverno – tudo por uma fração do preço de Paris, biensûr.

Comece pela Grand Place, onde ficava um antigo mercado medieval e, hoje, cenário do mais lindo edifício de Lille, La Vieille Bourse. Essa bolsa de valores do século 17 é decorada com querubins, leões e outros muitos ornamentos. De lá, siga pela rue de la Bourse até Vieux Lille, a cidade antiga, que abriga algumas das atrações mais interessantes: edifícios em estilo flamengo, pintados em laranja e rosa escuro; a catedral neogótica Notre Dame de la Treille (www.cathedralelille.com); e até um templo maçônico decorado com detalhes em ouro.

Crucial para uma cidade renomada por sua vida noturna, a cidade antiga também reúne os restaurantes mais atraentes e os bares mais animados de Lille. Prove as galettes (crepes salgados feitos com trigo sarraceno) do

Le Repaire du Lion (www.lerepairedulion.com), as ostas de L’Huitriere (www.huitriere.fr) e beba a sua cota de cervejas belgas no L’Autrement Dit (www.lautrementdit.com).

Descubra os tesouros das cidadezinhas

Lille é a base perfeita para explorar os destaques menos conhecidos da região, como Roubaix, Amiens, Arras e Villeneuve d’Ascq. Cada uma dessas singelas cidades tem uma atração principal, por isso são perfeitas para excursões de um dia.

A grande atração de Roubaix é La Piscine, uma galeria de arte única, ao redor de uma piscina desativada. A galeria possui uma bela variedade de esculturas e pinturas, iluminadas por um enorme vitral de pôr do sol. Também vale a pena visitar a grandiosa Église St-Martin, que data de 1511 – e ainda sobra tempo para provar da comida regional do ótimo Baraka (www.cooperativebaraka.fr).

Em Amiens, não é preciso procurar para encontrar a principal atração – é só olhar para cima. A catedral da cidade é a mais alta da França, bem mais do que a Notre-Dame de Paris. E apenas uma coisa deve estar na sua boca enquanto você se encanta com os ornamentos góticos e os vitrais: os famosos macarons d’Amiens, doces que levam amêndoa e mel.

Em Arras, você verá uma mistura muito mais eclética de estilos arquitetônicos. A riqueza de influências é o resultado de um impressionante renascimento pós-guerra. Mais de 90% das casas de Arras foram reduzidas a pós na Segunda Guerra Mundial, mas a reconstrução das décadas seguinte produziu um visual festivo, com fachadas coloridas estilo art déco misturando a outras em estilo flamengo e barroco. Por fim, a nem sempre lembrada Villeneuve d’Ascq está se tornando um nicho artístico graças ao LaM (www.musee-lam.fr), o seu museu de arte alternativa.

Sinta a febre Ch’ti

A nova febre do norte da França nasceu depois do filme de 2008 “Bienvenue chez lesch’tis”, traduzido no Brasil como “Aqui não é a Riviera”. O termo ch’ti é uma gíria regional e designa o habitante do norte, algo como “nortista”. Desde o lançamento dessa afetuosa sátira, o espírito caloroso e despretensioso dos habitantes do norte tornou-se uma constante na cultura pop da França (explorada até em programas de TV, que mostram a praticidade dos nortistas e suas aventuras).

Demorou um pouco para a região sentir os efeitos da febre ch’ti, mas Bergues, cenário da maior parte do filme, já entrou na onda. Há tours guiados pelos pontos principais mostrados no filme, e os visitantes ficam surpresos pela beleza de cidadezinha pequena de Bergues e pelas tranquilas planícies de Flandres (acesse www.bergues-tourisme.fr; apenas em francês).

“Um forasteiro que vem ao norte chora duas vezes”, segundo o filme. “A primeira quando ele chega, a segunda quando parte”. Quando chegar o seu momento de deixar para trás as cidadezinhas antigas e excêntricas de Nord-Pas-de-Calais, sua rica história e comida reconfortante, você vai concordar.

 

Anita Isalska é escritora e editor no escritório de Londres da Lonely Planet. Falante do francês e ex-moradora da cidade de Lille, nada a faz mais feliz do que uma taça de cidra em uma aconchegante brasserie no norte da França. Para segui-la no Twitter: @lunarsynthesis.

Este artigo foi publicado em Junho de 2014 e foi atualizado em Novembro de 2014.