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A estrada para Valhalla: aventuras Vikings no nordeste do Canadá

Mike MacEacheran

A estrada para Valhalla: aventuras Vikings no nordeste do Canadá

 

Mike MacEacheran

Lonely Planet Writer

É o tipo de manhã que traz a ameaça de um dilúvio bíblico, a neblina do atlântico se aproxima tão rápida que poderia ser chamada de bruxaria. Ela chega em grossas ondas pelo norte de Bonn Bay, em volta do farol de Lobster Cove, fazendo-o desaparecer. Em seu próximo truque, a Mãe Natureza faz a bruma que vem do mar engolir as cidades de Rocky Harbour e Woody Point, ao sul, antes de mudar de direção e deixar que o sol passe por ela com um brilho poderoso e absorvente.

É um ato digno do deus nórdico da tempestade, Thor, a revelação dos planaltos laranja do Gros Morne National Park em todo seu esplendor.

 

Gros Morne National Park é uma das primeiras, e mais espetaculares, paradas na Rota Viking © Dorian Tsai / 500px

 

Bem-vindo à Rota Viking

Essa é a melhor apresentação à costa oeste de Terra Nova que se poderia esperar. Eu estou seguindo para o norte na pouco conhecida Rota Viking, uma solitária estrada de 489km que passa por fiordes e florestas, apertando meus olhos para o vidro embaçado enquanto me preparo mentalmente para o que virá a seguir. Tendo em uma ponta Deer Lake, lar do maior aeroporto do oeste de Terra Nova e na outra L’Anse aux Meadows, o assentamento nórdico mais bem preservado da América do Norte, a rota vai num crescendo até seu gran finale, acumulando penhascos íngremes, maravilhas geológicas e peculiaridades culturais que os especialistas ainda não conseguiram entender bem. Quase todos os relatos da fronteira leste do Canadá mencionam seu passado Viking, mas a Rota 430, como também é chamada, tem uma dimensão extra: essa estrada do fim do mundo é também o território de vistas dramáticas. Pisque e você pode perder uma baleia esguichando ou um grupo de alces pastando ao lado do asfalto.

Embora hoje a maior parte das pessoas deva achar difícil apontar a região em um mapa, Terra Nova há tempos ocupa a imaginação de exploradores, pescadores e marinheiros. Ela fica ao sul da Groenlândia, na entrada do Golfo de São Lourenço, o maior estuário do mundo, e é atingida pelo Mar de Labrador. Politicamente a região é governada pelo Canadá e sua capital Ottawa, uns 1500km a oeste. Mas geograficamente o isolamento moldou Terra Nova de uma forma distinta e inimitável. Cardumes de bacalhau atraíram os pescadores da Europa e uns 70 anos atrás, de 1907 a 1949, a província ficou sob domínio inglês enquanto baleeiros bascos pescaram em sua costa no século 16. Antes disso, por volta do ano 1000, foi a vez do explorador Viking Leif Erikson, que chegou ali uns 500 anos antes de Cristóvão Colombo cruzar o Atlântico. Para os interessados em feitos ousados e conquistas, essa é uma road trip fervendo de história.

 

Histórias Vikings são uma parte importante da experiência em L'Anse-aux-Meadows, a comunidade nórdica mais bem preservada da América do Norte © Mike MacEacheran / Lonely Planet

 

Cânions imprevisíveis e florestas

Conforme o céu começa a clarear, eu paro na administração do Gros Morne National Park, ao norte de Rocky Harbour. O cenário é um dos mais bonitos na costa do Atlântico, e colinas verdes se erguem íngremes por cima de Western Brook Pond, uma dramática ilhota de água doce na qual visitantes podem seguir uma trilha costeira para a floresta de tuckamores. Quando a trilha termina, uma balsa os leva mais para dentro da natureza pós-glacial do fiorde para caminhadas de dois dias sob a sombra dos penhascos de 700m formados 1,5 milhões de anos atrás. Os locais chamam esse lugar de o Grand Canyon de Terra Nova, mas nessa era de turismo excessivo, é um lugar em que se pode deslizar facilmente para dentro do ritmo meditativo da vida na floresta. Não há saqueadores vikings aqui, apenas uma ocasional horda de renas passeando por aí, então eu sigo para o norte com cuidado: nunca uma road trip pareceu tão imprevisível.

De tarde, a Rota Viking começa a entrar na sombra das montanhas Long Range, o setor mais ao norte dos Apalaches, cujo contorno desenha uma paisagem de suaves montanhas salpicadas de bétulas anãs. No meio das montanhas ficam mirantes para observação de baleias e das amplas paisagens de Labrador, do outro lado do Estreito de Belle Isle. Aqui, no verão, os locais acordam com o barulho dos icebergs em migração se chocando contra a baía. É uma exibição constante de uma estética selvagem, com mar varrido pelo vento, a floresta boreal e o impressionante teatro ártico. 

 

L'Anse-aux-Meadows tem uma impressionante atmosfera de fim do mundo, cercado por ilhas reluzentes e montanhas © Mike MacEacheran / Lonely Planet

 

Voltando na história

Em Old Ferolle Harbour, onde o explorador britânico Capitão James Cook atracou em 1763, no meio de uma expedição, eu paro no motel Plum Point para provar uma antiga iguaria Viking – língua de bacalhau frita, puxada a sangue frio pela parte de baixo do queixo do peixe. Por volta de abril, outra especialidade comum ao longo da rota é a Flipper Pie, torta feita com barbatana de foca, e carne de foca seca pode aparecer também. Como muitas coisas ao longo dessa rota, a sensação é de se ter um pé no presente e outro firmemente enraizado no passado. Aqui, as regras comuns não se aplicam.

A Rota Viking é conhecida como o berço da cultura nórdica na América do Norte, mas a coisa sobe um grau quando a estrada se curva para o interior, cruzando a província na direção da cidade de St. Anthony, na costa leste. Nesse ponto, as lojas de souvenir vikings e casas com varandas em forma de barco ladeiam toda a estrada. Hospedarias de verão como a Valhalla Lodge B&B, Viking RV Park, e Snorri Cabins completam o quadro.

Longe dos assentamentos esparsamente habitados em torno de St. Anthony, L’Anse aux Meadows entra no meu campo de visão. Descoberta em 1960, as ruínas dessa colônia Viking de mil anos atrás marcam o lugar do primeiro assentamento Europeu na América do Norte de que se tem notícia. Aqui Leif Erikson, filho de Erik, o Vermelho, e mais uns 70 vikings construíram casas de madeira e sapê, fizeram os primeiros trabalhos em ferro do continente e exploraram na direção sul chegando até New Brunswick. De acordo com as Sagas Vikings, aqui é também onde pela primeira vez um bebê europeu nasceu em solo norte americano.

“Você está no que seria o quarto do chefe” Matthias Brennan, líder da equipe de simulações do departamento de parques do Canadá, me diz enquanto andamos pelo lugar, que é patrimônio listado pela Unesco. “Marcas desbotadas nos pastos foram escavadas e revelaram artefatos vikings, mas as escavações continuam. Ainda há muitas perguntas sem respostas.”

Enquanto seguimos explorando as colinas verdejantes, Brennan explica que a natureza exata da vida no acampamento de inverno é desconhecida. Outro mistério é por que os fazendeiros vikings foram embora depois de apenas 30 anos. Mas uma certeza absoluta é o quão produtivo eles foram durante sua estadia: escavações revelaram centenas de artefatos feitos de madeira, ferro, bronze, pedra e osso. Tais achados incluem um alfinete de cobre, caixas para casca de bétula, florões de madeira entalhada e um fuso. À nossa volta, o local está cheio de sinais de fogueiras e oficinas para fabricação de ferramentas. 

 

A vila Viking recriada de Norstead tem atores que fundem, tecem, assam e contam histórias em volta de fogueiras © Mike MacEacheran / Lonely Planet

 

Um povo áspero, uma terra áspera

O ultimo destaque dessa ponta norte de Terra Nova é Norstead, um porto mercantil Viking reconstruído. A olho nu o lugar parece habitado de verdade, com a casa do chefe coberta de sapê, oficinas com teares, pele de foca e um barracão que abriga uma réplica de 16m de um knarr viking, um navio mercante nórdico. Mas é tudo um design ambicioso. O lugar é um monumento à determinação humana, tanto dos vikings que o inspiraram quanto dos habitantes atuais de Terra Nova que estão determinados a contar sua história.

A Rota Viking começa logo ao norte do Deer Lake, mas ela não termina em L’Anse aux Meadows, onde a minha jornada termina. Novos assentamentos vikings estão sendo descobertos em Terra Nova e imagens recentes de satélite levaram os arqueólogos a um novo sítio em Point Rosee, 240km ao sul de Deer Lake. Com o tempo, isso pode aumentar o tamanho da Rota Viking ao trazer mais pistas a respeito das vidas desses marinheiros que foram intrépidos o suficiente para cruzar o Atlântico e se estabelecerem em um canto distante do mundo. Sem dúvidas, é uma história que vale a pena contar.

Faça acontecer: para mais informações sobre como planejar uma viagem pela Rota Viking de Terra Nova, visite vikingtrail.org. O Sítio Arqueológico Nacional de L'Anse aux Meadows abre do fim de maio ao início de outubro.  

Mike MacEacheran viajou para o Canadá graças à Terra Nova e Labrador. Os escritores do Lonely Planet não aceitam brindes em troca de cobertura.

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Este artigo foi publicado em Abril de 2019 e foi atualizado em Abril de 2019.

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