ÁsiaDicas e artigos

A arte viva das gueixas

Gueixa

Nenhum aspecto da cultura japonesa é mais mal-compreendido que as gueixas. Primeiramente – e vamos tirar isso a limpo –, as gueixas não são prostitutas. E sua virgindade também não é vendida diante da melhor oferta. Tampouco são obrigadas a dormir com os clientes. Simplificando, as gueixas são artistas altamente treinadas e pagas para entreter e dar vida aos eventos sociais no Japão.

Cada detalhe da vestimenta das gueixas é uma importante tradição
Foto por: Ekaterina Krasnikova/iStock/ThinkStock

 

 

Origem

A origem das gueixas ainda é tema de debate, mas a maioria dos historiadores acredita que a instituição das gueixas teve início no período Edo (1603-1868). Nessa época, havia diversos tipos de prostitutas que atendiam os homens nos bairros de prazer das grandes cidades. Algumas dessas moças adquiriram reconhecimento por suas habilidades em diversas artes e diz-se que algumas boates até empregavam artistas homens para entreter os fregueses. Dizem ainda que eles foram os primeiros a serem chamados de “gueixa”, que significa “pessoa da arte”.

Posteriormente, surgiu uma classe de moças jovens especializadas exclusivamente no entretenimento e que não tinham relações sexuais com os clientes. Essas foram as primeiras gueixas mulheres, que ao longo dos anos passaram a ser reconhecidas por seu domínio nas artes japonesas.

 

Centro das gueixas

Gueixas podem ser vistas pelo centro de Quioto
Foto por: Radu Razvan/iStock/ThinkStock

 

Sem dúvida alguma, Quioto é a capital mundial das gueixas. É confuso que lá elas não sejam chamadas dessa forma, mas de maiko ou geiko. A maiko é uma jovem de 15 a 20 anos que está no processo de treinamento para se tornar uma verdadeira geiko (a palavra em Quioto para “gueixa”). Durante esse período de cinco anos, ela vive num okiya (casa de gueixas) e estuda as artes tradicionais japonesas, incluindo a dança, o canto, a cerimônia do chá e o shamisen (instrumento de três cordas).

Nesse tempo, ela também começa a entreter os clientes, geralmente na companhia de uma geiko, que age como uma irmã mais velha.

Devido ao treinamento excessivo que recebem, as maiko ou geiko são como museus vivos da cultura tradicional japonesa. Além de suas habilidades, o quimono que vestem e os ornamentos no cabelo e no obi (faixa do quimono) representam as mais altas realizações nas artes japonesas. Portanto, não é de se surpreender que, tanto para os japoneses quanto para os estrangeiros, o encontro com uma gueixa seja um acontecimento mágico.

Mesmo sendo possível que, antigamente, meninas jovens fossem vendidas para esse fim, hoje em dia elas tomam a própria decisão, muitas vezes depois de visitar Quioto para ver uma das famosas danças das gueixas. O dono do okiya encontrará com a jovem e seus pais para determinar se ela está comprometida com a ideia e se seus pais estão dispostos a dar-lhe permissão para ingressar no mundo das gueixas (o okiya investe um valor considerável em treinamento e quimonos, portanto não costumam aceitar jovens que podem desistir mais adiante).

Detalhe do penteado de uma maiko
Foto por: DAJ/ThinkStock

 

Quando a maiko completa seu treinamento e se torna uma geiko, ela pode se muda do okiya e viver sozinha. A partir desse momento, ela está livre para ter um namorado, mas, se ela se casar, terá de abandonar o mundo das gueixas. É muito fácil reconhecer a diferença entre uma maiko e uma geiko: as geiko usam perucas com ornamentação mínima (geralmente um pente de madeira na peruca), enquanto as maiko usam seu próprio cabelo, penteado de forma elaborada com diversos ornamentos conhecidos como kanzashi. Além disso, as maiko usam sofisticados quimonos de manga comprida, enquanto as geiko vestem modelos mais simples com mangas mais curtas.

 

Entretenimento gueixa

A dança é parte fundamental da formação das maiko
Foto por: RossellaApostoli/iStock/ThinkStock

 

As maiko e as geiko entretêm seus clientes em restaurantes exclusivos, em salões de banquetes, “casas de chá” (tipos de bares tradicionais exclusivos) etc. Uma noite de entretenimento maiko/geiko geralmente começa com uma refeição kaiseki (alta culinária japonesa). Enquanto seus fregueses comem, as maiko/geiko entram na sala e se apresentam no dialeto de Quioto.

Elas então servem as bebidas e conversam graciosamente com os clientes. Às vezes, até participam de jogos com bebidas, e podemos dizer por experiência que é difícil competir com uma gueixa em seu próprio jogo! Se for uma festa grande com jikata (tocadora de shamisen), é possível que as meninas dancem após o jantar.

Como é de se esperar, esse tipo de entretenimento não sai barato: um jantar com uma maiko, uma geiko e uma jikata pode custar cerca de US$900, mas definitivamente vale a pena, pois é uma experiência única na vida. Sejamos francos: “Eu jantei com uma gueixa” está no topo da lista das coisas mais interessantes já feitas.

É impossível organizar um entretenimento com uma gueixa sem a ajuda de um cliente bem relacionado. No entanto, você consegue por meio dos hotéis e ryokan sofisticados e algumas operadoras de turismo de Quioto.

Segundo conhecedores do assunto, a estimativa é de que haja 65 maiko e pouco mais de 185 geiko em Quioto (esse último número inclui as jikata). Elas também podem ser encontradas em outras partes do país, particularmente em Tóquio. No entanto, há menos de mil delas em todo o Japão.

O melhor jeito de organizar um entretenimento particular com uma gueixa em Quioto é por meio de uma agência de turismo ou de uma organização cultural de alto padrão. A Kyoto Culture.org (www.kyotoculture.org) promove jantares, cerimônias do chá e prova de quimonos com gueixas.

 

Etiqueta gueixa

Não há dúvidas de que ver de relance uma gueixa seja uma experiência japonesa única. Infelizmente, o jogo de tentar “localizar uma gueixa” realmente saiu do controle no distrito Gion, em Quioto (o principal de gueixas na cidade). Vale a pena lembrar das seguintes coisas se você pretende se unir aos localizadores de gueixas em Gion:

  • As gueixas que você verá em Gion provavelmente estão a caminho de algum compromisso e não podem parar para tirar fotos ou conversar.
  • Não se deve tocar ou agarrar uma gueixa, nem impedir fisicamente sua passagem.
  • Nenhuma gosta de ser assediada por fotógrafos ou perseguida ao caminhar pelas ruas.
  • Se você realmente quer ver uma gueixa de perto, agências de turismo e ryokan de alto padrão ou hotéis podem organizar a participação num evento.
  • Se o seu objetivo é tirar fotos de uma gueixa, encontrará muitas “gueixas turistas” nas ruas de Higashiyama durante o dia. São turistas que pagaram para serem vestidas e maquiadas como gueixas. Elas se parecem muito com as verdadeiras e geralmente vão posar com prazer para as fotos.

 

Esta matéria faz parte do Guia Japão da Lonely Planet

Este artigo foi publicado em Março de 2015 e foi atualizado em Março de 2015.

Ásia