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As tradições de carnaval mais únicas da América Latina

Bridget Gleeson

O Rio não é a única cidade que sabe comemorar o carnaval com estilo. Na semana que antecede a quaresma, milhões de pessoas por toda a América Latina tomam as ruas para dançar, ouvir música ao vivo, beber e festejar – além de outras atividades estranhas e surpreendentes.


O carnaval não é feito só de brilhos e penas – aprenda mais sobre as tradições da América Latina © Angie Salgar / Getty Images

Em Paraty, no Brasil, os participantes cobrem seus corpos de lama; em Trinidad e Tobago, eles se lambuzam de chocolate derretido. No Paraguai, os carnavalescos espirram neve falsa uns nos outros. No Panamá caminhões-pipa refrescam a multidão. E no México a festa começa quando um enorme busto de papel-machê é queimado.


Foliões queimam um busto como parte da Quema del Mal Humor em Veracruz © ILSE HUESCA / Getty Images

Queima do Mau-Humor (Quema del Mal Humor) no México

No Mexico, o carnaval começa com uma amada tradição: a Quema del Mal Humor, ou Queima do Mau-Humor. O ritual começa com um busto gigantesco de algum politico ou celebridade detestado – imagine uma piñata enorme e cômica – suspenso acima da multidão. Então colocam fogo no boneco de papel-machê e os foliões vibram e comemoram enquanto ele queima. A tradição é simbólica: enquanto a piñata queima, o sinal é para as pessoas abandonarem suas preocupações cotidianas e aproveitarem o início da festa. 

A Queima do Mau-Humor acontece em festejos de carnaval por todo o México, especialmente em Veracruz e Mazatlan, onde em 2016 e 2017 o busto queimado foi o mesmo: o presidente dos Estados Unidos Donald Trump.


Foliões se preparam para o Bloco da Lama, em Paraty © YASUYOSHI CHIBA / Getty Images

Bloco da Lama no Brasil

A mais de 150km das luzes brilhantes do Sambódromo do Rio de Janeiro, há uma festa menos conhecida na cidade histórica de Paraty – uma mais pé no chão. Literalmente. Em vez de adereços de plumas e asas de lantejoula, muitos foliões aqui vestem lama.

O Bloco da Lama tem origens humildes: durante o carnaval de 1986, depois de uma chuva de verão, um grupo de adolescentes começou a brincar com a lama na praia e então saiu desfilando pelas ruas, irreconhecíveis até mesmo para seus amigos e famílias. E assim, nasceu uma tradição anual. Todo ano os foliões mergulham em piscinas de lama e lambuzam seus corpos e rostos, fazem guerras de lama, lutas na lama e então dançam samba e reggaeton junto dos outros blocos de carnaval. É um espetáculo único que é praticamente o oposto complexo do brilho e neon do Rio, mas basta uma olhada na multidão de enlameados para que você tenha certeza de que é igualmente divertido.


Você não precisa de um casaco para a “nevasca” de carnaval em Encarnacion, Paraguai © Matyas Rehak / shutterstock

Neve no verão do Paraguai

Quase nunca neva na agradável cidade de Encarnación, Paraguai, o que pode explicar a novidade das altas de neve falsa em spray, uma parte essencial do carnaval da cidade. Esteja avisado: se você se juntar a essa festa de rua, você pode acabar com “neve” na cara, ou você pode acabar coberto de creme de barbear, ou com suas roupas manchadas de tinta branca.

A impressão de inverno no meio do verão é parte da fantasia de Encarnación, a auto-proclamada “capital paraguaia do carnaval”. É um título que a cidade merece, considerando que Encarnación tem uma das festas mais animadas da região – e um sambódromo permanente que acomoda até 12 mil foliões por vez.


Dançarinos participando da Diablada durante o carnaval de Oruro, Bolívia © AIZAR RALDES / Getty Images

Batalha entre o bem e o mal na Bolívia

O carnaval de Oruro Bolívia, tem um título especial: a UNESCO o nomeou uma Obra-Prima do Patrimônio Oral e Intangível da Humanidade. Essa festa anual tem profundas raízes indígenas e uma história de tempos antiquíssimos, quando a área era um importante centro religioso. Os colonizadores espanhóis tornaram ilegais as cerimônias nativas e forçaram a introdução de tradições católicas.

Uma dessas tradições ainda é um destaque do carnaval de Oruro. As cores e sons do carnaval atingem seu ápice durante a “Diablada” (a dança dos demônios), uma dança ritual que apresenta centenas de demônios em fantasias decorativas, máscaras grotescas e perucas exuberantes. É uma batalha entre o bem e o mal com um bando de diabos e anjos fantasiados, além de dançarinos que representam os sete pecados capitais: orgulho, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça.


Foliões curtem a chuva do culeco (caminhão pipa) no carnaval do Panamá © RODRIGO ARANGUA /Getty Images

Água, água por toda parte no Panamá

As ruas ficam quentes e suadas durante as festas de carnaval em Las Tablas, Panamá. Por sorte, a multidão local é bem preparada para esse clima tropical. Todo ano, culecos (caminhões pipa) estacionam nas praças e dirigem devagar pelas ruas, molhando os foliões com água enquanto eles dançam, cantam e bebem enormes quantidades de cerveja.

Use roupa de banho: quando a festa chega no auge é impossível evitar a mojadera (jato de água), que pode te molhar um pouco, ou deixar completamente ensopado, depende da sua sorte. Os participantes também trazem arminhas de água e balões d’água e é fácil – e divertido! – ser pego em um fogo cruzado. Quando a temperatura está fervendo, alguns locais adotam uma abordagem ainda mais direta: não fique surpreso se alguém jogar um balde d’água diretamente na sua cabeça (dica: compre uma capa a prova d’água para seu celular ou câmera).


Escolha seu material durante o J'ouvert de Trinidad: chocolate, lama, óleo ou tinta mud, © Sean Drakes / Getty Images

Entrando na bagunça de Trinidad e Tobago

Em Port of Spain, Trinidad e Tobago, o carnaval começa com o nascer do sol. O J’Ouvert (a palavra é considerada um derivado de um termo do creolo francês, jou ouvè, que significa “amanhecer”) é a animada festa que marca o começo oficial do feriado. As ruas se enchem de pessoas dançando e festejando, mas diferente do Rio, ou outros destinos carnavalescos famosos, os foliões não usam fantasias glamourosas enfeitadas de lantejoulas e plumas. Eles vestem roupas velhas e se cobrem com chocolate, óleo, tinta ou lama.

Qual a ideia por trás do ritual? Em Port of Spain, e por todo o Caribe, crê-se que a tradição vem dos tempos da escravidão. Embora não fossem convidados ou incluídos nas festas dos senhores durante o carnaval, os escravos não queriam ficar de fora das festividades. Então, eles usavam os materiais que tinham a mão para se disfarçarem e não serem reconhecidos na festa de rua. Hoje, é um aceno para a história da região e é visto como uma forma de borrar as linhas étnicas e raciais. Esse é um elemento do carnaval que é consistente em todos os lugares: é uma festa inclusiva e todos são bem-vindos. Quanto mais melhor, não importa onde.

Este artigo foi publicado em Fevereiro de 2019 e foi atualizado em Fevereiro de 2019.

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