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As melhores caminhadas na Patagônia e Terra do Fogo

Patagônia

Por Anna Kaminski

O sul do Chile e da Argentina é o sonho de qualquer trilheiro. A mistura de montanhas irregulares coroadas por geleiras e cachoeiras cintilantes, cerrados pontilhados por pálidos lagos glaciais, campinas floridas, pântanos e penhascos que cercam o Estreito de Magalhães possibilita incontáveis oportunidades para os fãs de caminhadas selvagens.

Das excursões de um dia a trilhas de uma semana pela cordilheira mais inóspita da Terra do Fogo, aqui estão as nossas cinco caminhadas favoritas na região.

As estradas da Patagônia
Foto por: kavram/iStock/ThinkStock

 

Torres del Paine

Batizado com o nome de sua atração principal – as três torres de granito de 2.000 m de altura –, o parque nacional mais visitado do Chile atrai milhares de mochileiros todos os anos para os seus espetaculares cenários montanhosos, hordas de guanacos pastando e às vezes até um puma cruzando o caminho. A maioria dos trilheiros opta por uma ou duas rotas clássicas no Parque Nacional Torres del Paine: a “W” ou o “Circuito”. A rota W realmente se parece com a letra, e é melhor fazê-la no sentido oeste-leste – há vistas melhores dos picos Los Cuernos e assim você deixa os trechos mais difíceis para quando a sua mochila estiver mais leve. O primeiro trecho é uma caminhada de quatro horas em linha reta ao longo do Lago Grey, partindo do Lodge Paine Grande para o Refugio Lago Grey, com vistas belíssimas do Glacier Grey ao longo do caminho. Depois vem o trecho de subida íngreme do glaciar – passando pelo Valle Francés, repleto de cachoeiras – para olhar de perto Los Cuernos e Las Torres (cinco horas ida e volta), enquanto o último trecho (quatro horas de ida) é uma subida moderada seguida por uma escalada mais difícil até o Miradór Las Torres – o observatório à beira do lago, bem debaixo das três torres.

Los Cuernos à vista no Parque Nacional Torres del Paine
Foto por: agustavop/iStock/ThinkStock

 

Já a rota Circuito engloba a W e também a parte de trás do parque. É melhor ir no sentido anti-horário, partindo do Refugio Las Torres para uma vista sem paralelos do Glacier Grey, que aparece lá embaixo conforme você cruza o ponto mais alto da trilha – Paso John Gardner (1241m).

Enquanto a trilha W leva quatro dias, mais ou menos, o Circuito exige de sete a nove dias, possibilitando tempo extra para se demorar um pouco no acampamento sob o Paso John Gardner, já que é perigoso demais cruzá-lo quando há ventania. Ambas as trilhas são bem sinalizadas e preservadas. Trilheiros passam a noite em acampamentos ou em dormitórios (caros) nos refugios.

 

Excursões de um dia em El Chaltén

A pequenina El Chaltén é a base perfeita para trilhas de um dia na cordilheira Fitz Roy, ali nas proximidades, que faz parte do Parque Nacional Los Glaciares. As trilhas são bem marcadas, e há acampamentos exclusivos para os que querem combinar vários dias de caminhada. A Laguna Torre (12 km; três horas de ida) é uma trilha suave, que leva à lagoa de mesmo nome, ao pé do imponente pico rochoso Cerro Torre, de 3.128 m de altura, que se ergue acima dos glaciares Torre e Grande.

Uma trilha de um dia mais desafiadora leva você à Laguna de los Tres (15 km; quatro horas de ida), com lindas vistas da Fitz Roy durante o caminho e uma parada para almoço na Laguna Capri. Se estiver ventando muito, não será seguro subir o trecho final mais íngreme, de 1,5 km, mas, se não for o caso, você chegará à gélida lagoa azul-cobalto e poderá ainda andar até o penhasco com vista para a Laguna Sucia (Lagoa Suja), cujo nome não lhe faz nenhuma justiça.

Mt Fitz Roy à vista no Parque Nacional Los Glaciares
Foto por: bluejayphoto/iStock/ThinkStock

 

Uma trilha fácil, de quatro horas, à sudoeste da cidade, leva à Laguna Toro e é uma ótima opção para avistar as torres gêmeas do Cerro Torre e do Cerro Fitz Roy à distância.

Há também trilhas mais curtas que levam a mirantes nas costas do escritório do parque nacional, e um passeio de 4 km para a cachoeira Chorillo El Salto.

 

De El Chaltén a Villa O’Higgins

Essa trilha, que cruza a fronteira do Chile com a Argentina, engloba duas travessias de rios e uma caminhada de 20 km que alguns ciclistas e trilheiros fazem todos os anos. Teoricamente, pode ser feita em um dia. Várias balsas atravessam todos os dias o Lago del Desierto, a 37 km de El Chaltén, na alta temporada; pegue a primeira balsa do dia para carimbar o seu passaporte na fronteira, perto do porto. Dali, uma trilha íngreme, irregular e às vezes lamacenta serpenteia pela floresta até lá em cima. Após algumas horas, você passará pela placa de boas-vindas do Chile, de onde se continua por uma estrada de terra para fazer a travessia descalça de um riacho gelado e depois descer até o glacial Lago Argentino/Lago O’Higgins. Perto da praia do lago, você ganhará o carimbo chileno no posto de fronteira Candelario Mancilla. As balsas para a Villa O’Higgins, no Chile, em tese partem várias vezes ao dia na alta temporada, mas isso também depende do clima, então não deixe de levar uma barraca e comida suficiente – o único espaço para acampamento fica acima da marina.

 

Cabo Froward

A trilha que leva até o ponto mais ao sul da América do Sul é um desafio selvagem a ser experimentado, preferencialmente, com outros companheiros de trilha ou em um grupo organizado pela Erratic Rock (www.erraticrock.com). O caminho é bem marcado, mas ainda assim dificultoso, passando por diversos tipos de terreno, de enseadas isoladas a florestas densas, tundras e penhascos, além de duas travessias de rio – Río Genes e Río Nodoles – que devem ser sincronizadas com a baixa maré. Leve o seu equipamento em uma mochila-canoa à prova d’água, que possa ser usada para flutuar caso seja necessário. O Cabo Froward fica 90 km ao sul de Punta Arenas, no Estreito de Magalhães, e são necessários dois ou três dias para se chegar até ele. Você acampará à noite perto dos postos desertos de observação de baleias e na floresta, e depois terá de voltar tudo de novo, a menos que organize uma carona com barcos pesqueiros.

 

Dientes de Navarino

Considerada uma das trilhas mais difíceis da América do Sul, esse circuito de cinco dias e 54 km pelas montanhas inóspitas da Ilha Navarino é um desafio mesmo para trilheiros bem experientes, pois o caminho não é bem marcado e não há nenhuma infraestrutura. Ainda assim, não faltam recompensas aos que se arriscam, na forma de paisagens rochosas, lagos isolados e vistas para o Estreito de Beagle e o Cabo Horn. Pode-se combinar o circuito, ainda, com outras excursões mais curtas.

A trilha sobe da estátua da Virgem até a Laguna del Salto (onde a maioria das pessoas acampa na primeira noite), passando pelo mirante do Cerro Bandera. Da Laguna, é difícil escalar o terreno até Paso Primero. O Paso Australis e o Paso de los Dientes também precisam ser vencidos antes de se chegar ao acampamento na Laguna Escondida. No terceiro dia, é hora de atravessar o Paso Ventarron e de descer até a Laguna Martillo, enquanto o quarto dia é dedicado ao maior dos desafios: uma subida até o Paso Virginia (o ponto mais alto da trilha, a 869 m de altura), seguido por uma descida particularmente íngreme e traiçoeira até a Laguna Los Guanacos.

No último dia, você descerá em linha reta em meio à floresta densa.

 

Dicas práticas

O clima da Terra do Fogo é conhecido por suas mudanças bruscas, então mesmo que você vá fazer apenas uma trilha de um dia, não deixe de levar roupas quentes e à prova d’água, comida, água e uma lanterna. Botas resistentes, com solado aderente (para não escorregar) são essenciais. A água dos riachos gelados da Patagônia é cristalina e potável; não é o caso, porém, da água na Terra do Fogo, pois roedores a infectam com a parasita giárdia.

Se for acampar, use uma barraca resistente, que aguente os ventos patagônicos, e leve gás suficiente para o fogão portátil, assim como alimentos que não pesem demais na mochila. Suas roupas, o saco de dormir e outros acessórios devem ficar fechados em embalagens à prova d’água, para protegê-los da chuva e na travessia dos rios.

Parque Nacional Torres del Paine
Foto por: Muhur/iStock/ThinkStock

 

A SIG Patagon produz bons mapas digitais do Torres del Paine e do Cabo Froward para iPhone e Android, encontrados em www.maps.comwww.pdf-maps.com, respectivamente. Bons mapas e GPS são necessários para as trilhas de Cabo Froward e Dientes de Navarino; estas também não são recomendadas para trilheiros solitários, já que você estará completamente isolado se algo lhe acontecer.  


 

Este artigo foi publicado em Fevereiro de 2015 e foi atualizado em Fevereiro de 2015.

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