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Em meio ao surrealismo em San Luis Potosí

Jennifer Fernández Solano

Para o escritor e poeta André Breton, o México é o “país mais surrealista do mundo”. Fundador desse movimento artístico, Breton devia saber o que estava falando. Influenciados pelas teorias psicanalíticas de Freud, os artistas surrealistas alimentavam a criatividade com sonhos e pensamentos não filtrados e acreditavam em libertar a mente inconsciente de sua racionalidade.

 

Muitos dos mais renomados artistas surrealistas fugiram para o México durante e após a Segunda Guerra Mundial, encontrando, no país, muita inspiração para a sua arte. © Jennifer Solano Fernández / Lonely Planet

Um aumento no interesse em arte surrealista, especificamente a da celebrada artista Leonora Carrington, levou à abertura de dois museus no estado de San Luis Potosí, complementando o já existente e fascinante jardim de esculturas em Las Pozas, em Xilitla. Com essas três homenagens ao surrealismo mexicano, San Luis Potosí se tornou, por excelência, o destino surrealista do México.

O jardim de esculturas de Edward James, um paraíso em Xilitla

Durante as décadas de 1930 e 1940, muitos artistas e intelectuais europeus buscaram refúgio da guerra no México, e, assim, o surrealismo se espalhou. Edward James, poeta e mecenas de artistas, estabeleceu-se em La Huasteca Potosina, uma região tropical em San Luis Potosí, conhecida por impressionantes cachoeiras, cavernas e cenotes. Nessa remota e exuberante selva, James construiu sua própria versão do jardim do Éden e o encheu de estruturas tanto fascinantes quanto absurdas.

 

As esculturas em Las Pozas são emolduradas pela frondosa mata © Phillip Lee Harvey / Getty Images

Durante viagem ao México para visitar amigos, James se viu cercado por borboletas enquanto tomava banho de rio, considerando isso um sinal de que deveria comprar uma propriedade na região. Em um pedaço de terra perto da cidade serrana de Xilitla, James originalmente pretendia criar um jardim cheio de orquídeas, planta que ele amava. No entanto, após um rigoroso inverno tirar a vida de suas preciosas flores, ele decidiu construir oníricas esculturas e esplêndidas estruturas na selva, algo que não pereceria sob as mãos da natureza. Hoje o mundo deve a James a existência do encantador playground surrealista de Las Pozas.

Orquídeas de concreto, cobras representando os sete pecados capitais e um palácio de bambu se misturam a cachoeiras, piscinas naturais e um rio caudaloso. Pontes e escadas espirais que não levam a lugar algum se entrelaçam à verdejante selva. O jardim de esculturas de Edward James é, literalmente, feito de sonhos – os sonhos dele. A construção foi interrompida com a sua morte em 1984, e, portanto, estruturas não terminadas, como a adequadamente nomeada “Casa com três andares que poderiam ser cinco”, tornam o local ainda mais peculiar.

 

De cobras a orquídeas de pedra e estruturas escondidas, há muito a se explorar em Las Pozas © Stephani-Elizabeth / Getty Images

Quem caminha pelo exuberante jardim e encontra estruturas sobrenaturais protegidas pela natureza provavelmente se sente como exploradores descobrindo sítios arqueológicos antigos. Há algo de místico em ver como a selva parece tomar as estruturas surrealistas para si.

Uma casa surreal para a arte surrealista de Leonora Carrington

Leonora Carrington visitava seu amigo e benfeitor Edward James em Las Pozas com frequência e até pintou um mural na propriedade. A história de vida de Carrington é tão fascinante quanto seu trabalho. Nascida em uma aristocrática família britânica, desde jovem, envolveu-se com o movimento surrealista. Aos 20 anos, Carrington conheceu o muito mais velho (e casado) Max Ernst, e os dois rapidamente se tornaram amantes e colaboradores. Enquanto morava na França, Ernst foi preso pela Gestapo e Carrington fugiu para a Espanha, caindo em desespero. Sua família a internou em um asilo. Após deixar o lugar, ela fugiu da Europa e se casou com um diplomata mexicano. Embora os dois não tenham ficado juntos muito tempo, Carrington fez do México seu lar, onde permaneceu até morrer aos 94 anos de idade.

A primavera de 2017 marcou o centésimo aniversário do nascimento de Carrington, o que aumentou o interesse pela artista. Em março de 2018, o primeiro espaço totalmente dedicado à sua vida e obra foi inaugurado no Centro de las Artes, em San Luis Potosí. Localizado em uma antiga penitenciária estadual, o Centro de las Artes foi reinventado alguns anos atrás como um centro para artes e cultura. O Museo Leonora Carrington é uma adição internacionalmente reconhecida às ofertas do centro.  

 

Três esculturas distintas recebem os visitantes no recém-inaugurado Museo Leonora Carrington © Miguel Galarraga / Lonely Planet

O espaço recebe os visitantes com uma coleção de esculturas de bronze de Carrington. Pássaros fantásticos remam um barco que se funde a eles, uma criatura humanoide com cabeça de cervo implora aos céus pedidos silenciosos e uma forma alienígena com duas cabeças de águia brotando de seu quadril estica os longos dedos que saem de seus braços. O que um dia foram celas de prisioneiros hoje abrigam mais esculturas de Carrington, desenhos e trabalhos de bijuteria; criações peculiares que remontam a tradições célticas e pré-hispânicas.

Um trio surrealista com a abertura do segundo Museo Leonora Carrington

Em outubro de 2018, uma segunda unidade do Museo Leonora Carrington abriu em Xilitla, complementando belamente o jardim de esculturas de Edward James.

Embora a coleção foque nas esculturas de Carrington, o museu também explora períodos da vida dela com fotografias ampliadas e linhas do tempo informativas. Dentre os destaques da coleção, está uma parede com 25 máscaras de bronze, uma escultura de um alienígena com uma bonita cabeça alongada e horizontal e uma figura que parece um banco com rostos de ambos os lados. O prédio de três andares do museu é moderno, elegante e possui salas para oficinas, um café no terraço e uma loja de presentes com itens inspirados em Carrington. 

 

O segundo museu para Carrington possui muitas esculturas da artista © Jennifer Fernández Solano / Lonely Planet

Tanto o museu de Xilitla quanto o de San Luis Potosí foram possíveis graças a Pablo Weisz – um dos dois filhos de Carrington –, que cedeu os direitos sobre as obras oníricas de sua mãe.

Faça acontecer

La Huasteca Potosina é uma região vasta e rústica, cortada por cadeias montanhosas. Dirigir aqui pode ser complicado, e a cidade de Xilitla fica a cinco horas de carro da capital do estado, San Luis Potosí. Empresas de turismo locais, como a Auténtico San Luis, oferecem experiências personalizadas para aventureiros ou amantes das artes, poupando que o turista enfrente as sinuosas estradas sozinho. Como alternativa, ônibus saem diariamente de San Luis Potosí para Ciudad Valles, e, de lá, é possível pegar outro ônibus para Xilitla.

Este artigo foi publicado em Novembro de 2019 e foi atualizado em Novembro de 2019.

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