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Pra lá de Las Vegas: cidades-fantasma e encontro com aliens na Nevada rural

A cidade-fantasma de Rhyolite

Tim Richards

Viva Las Vegas! Quando Elvis Presley cantou essas palavras há 50 anos, ele captou a essência da famosa cidade-fantasia no meio do deserto. Vegas é vibrante, com suas multidões passeando pelas calçadas da The Strip aos jogos que animam as mesas dos cassinos. Chega uma hora, porém, em que a festa tem de parar – ou, pelo menos, fazer uma pausa. Quando o seu bolso já estiver quase vazio; os néons, cansando a sua vista; e aquela cara de parque temático que caracteriza a cidade já estiver lhe parecendo bem brega, é hora de deixar Vegas para trás e explorar Nevada. A maioria dos visitantes não vê grandes interesses no restante desse estado, pois só o veem de relance lá de cima, do avião. Mas a parte rural de Nevada é uma fascinante colcha de retalhos de paisagens desérticas, instalações governamentais misteriosas e cidadezinhas com jeitão de Velho Oeste. Sugerimos, aqui, um roteiro de três dias para escapar de Las Vegas.

Dia 1: cidade-fantasma da Corrida do Ouro e encontro com aliens

Você não precisa dirigir muito no sentido oeste, partindo de Las Vegas, para chegar à zona de preservação Red Rock Canyon National Conservation Area, um lugar perfeito para dar início à desintoxicação do espírito urbano. Parte do Deserto de Mojave, essa paisagem árida é dominada por espetaculares formações de arenito vermelho. Do centro de visitantes, já se avista um longo trecho rochoso, que contrasta com a paisagem árida, pontilhada pelos arbustos espetados de Yucca.

 
Escalando no Red Canyon - não é para os fracos!

 

Faça um passeio pelas trilhas que partem do centro de visitantes, sem perder de vista o conselho do monitor Jim Cribbs sobre as cascavéis: “Fique a pelo menos 3 m de distância para que elas o deixem em paz. Se puxar uma cascavel pela cauda, ela morderá. Não brinque com elas”. Na direção noroeste, você deparará com mistérios ao margear o Nellis Air Force Range, uma área um tanto sigilosa, composta por uma base de testes nucleares e a misteriosa Área 51, relacionada a óvnis pelos mais animados seguidores de teorias da conspiração.

 
Hum...bem charmoso. Área 51 (o que sobrou dela!)

 

Para mergulhar ainda mais no tema dos óvnis, quando chegar à cidade de Beatty (www.beattynv.info), faça o check-in no Atomic Inn (www.theatomicinn.com). Tirando o máximo proveito dos mitos que cercam a Área 51, esse motel retrô é todo decorado com manequins de alienígenas e bombas inativas.

De Beatty, são só alguns minutos de carro até a cidade-fantasma um tanto bizarra de Rhyolite, símbolo da Corrida do Ouro. Abandonada nos anos 1920 após a extinção do ouro local, as suas ruas são cheias de prédios decrépitos, como a antiga estação de trem e uma casa feita inteira de garrafas.


Ao pé da cidadezinha fica o museu a céu aberto Goldwell Open Air Museum, com obras de arte impressionantes rodeadas pela dura paisagem e pela imensidão azul do céu. Para finalizar o dia, visite um dos bares-salões no mais puro estilo cowboy em Beatty. Alguns personagens vivos são conhecidos por essas bandas – o símbolo do Happy Burro (www.facebook.com/pages/Happy-Burro-Chili-Beer), por exemplo, é o “Whiskey Pete”, uma figura ornamentada com a qual você pode cruzar no bar. Ali perto, o KC’s Outpost (kcsoutpost.com) tem um divertido show temático de cowboys acompanhado de churrasco.


Dia 2: faça uma imersão na história de uma antiga cidade mineradora

Agora siga para o norte, na direção de Tonopah (www.tonopahnevada.com), passando pela cidadezinha “semifantasma” de Goldfield (www.goldfieldhistoricalsociety.com) no caminho. Ainda há algumas centenas de moradores lá, mas as suas ruas são margeadas por edifícios grandiosos de quando a população era de 20 mil pessoas, há um século; a sede do corpo de bombeiros é particularmente impressionante.

Em Tonopah, não deixe de visitar o Mizpah Hotel (www.mizpahhotel.net). Este hotel de 1907 belamente restaurado é outro reminiscente dos tempos de mineração, com um espaçoso salão e até um fantasma próprio, a chamada Lady in Red (Dama de Vermelho). Os altos e baixos econômicos de Tonopah desde a sua glória mineradora produziram uma paisagem urbana muito fotogênica. Sem lojas de rede à vista, trata-se de uma coleção de fachadas de lojinhas que lembra os Estados Unidos dos filmes: entre elas, a KozyKorner Deli, a Tonopah LiquorCo, o austero prédio dos correios e a A-Bar-L Western Store, onde você encontra toda a indumentária de cowboy.

Para entender mais da história dessa cidade, passe pelo museu Central Nevada Museum (www.tonopahnevada.com/CentralNevadaMuseum.html), assim como pelo centro de mineração Tonopah Historic Mining Park (www.tonopahhistoricminingpark.com), nas colinas acima da cidade.

 
Mina abandonada em Tonopah - onde NÃO passar a noite

 

Depois de jantar no Mizpah, não deixe de sair para olhar para cima. Como fica sobre as montanhas San Antonio, com muito pouca poluição, Tonopah é conhecida por ter o céu noturno mais límpido dos Estados Unidos. Uma vez por mês, a Sociedade Astronômica de Tonopah (tas.astronomynv.org) organiza uma sessão pública de observação de estrelas no Highland Park.


Dia 3: entre no forno do Parque Nacional do Vale da Morte

 
Um pedacinho do Vale da Morte...o nome diz tudo

 

Siga para o sul e depois para o oeste, na direção da fronteira com o estado da Califórnia, para Scotty’s Castle, que fica no Death Valley, ou Vale da Morte. Essa linda mansão de estilo espanhol, originalmente conhecida como Rancho do Vale da Morte, oferece uma visita fascinante.

Foi construída pelo milionário Albert Johnston nos anos 1920, depois de sua mulher, Bessie, ter reclamado da falta de uma boa acomodação para o tempo em que passavam na região. A começar, a razão que levou Johnston para aquelas bandas não foi das melhores, já que ele foi induzido por Walter “Scotty” Scott a investir em uma mina de ouro fraudulenta. Achando mais divertido do que ofensivo, o milionário manteve a amizade com Scotty e, mais tarde, até corroborou com o mito de que a mansão pertencia ao amigo (quando, na verdade, ele morava em uma cabana próxima).

Tours pela casa são conduzidos por guias do parque nacional vestidos em roupas de época e oferecem um olhar interessante do estilo de vida dos ricos e excêntricos da borbulhante década de 1920.

Chega a vez, então, de uma experiência selvagem. Dirija na direção sul pelo incrivelmente árido Vale da Morte. Pare para almoçar no Furnace Creek Ranch, depois dirija para o Zabriskie Point. O penhasco em forma de corcunda pode ser avistado de um mirante do outro lado.

 
O espantoso Zabriskie Point

 

Por fim, rume para a Badwater Basin, próxima dali. A 86 m abaixo do nível do mar, esse depósito natural de sal é o ponto mais baixo da América do Norte. Ficar parado à beira dela, em pleno verão, é como estar dentro de um forno. Trata-se de uma exposição um pouco arriscada a um dos maiores extremos da natureza; nessa área do Vale da Morte, já se registrou a temperatura de 57°C.

Após o calorão intenso e a vastidão vazia das paisagens, é hora de voltar ao ar-condicionado e aos resorts badalados da “Sin City” (Cidade do Pecado), como é bem apelidada Vegas. Adiós Vale da Morte, hola Las Vegas. 

Este artigo foi publicado em Setembro de 2014 e foi atualizado em Novembro de 2014.

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